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A tropa em shock: um grupo no Facebook para atacar e destruir pessoas

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Imagem usada na capa do grupo
Imagem usada na capa do grupo

Exatamente 422 pessoas - muitas, de Franca - se reuniram em um grupo no Facebook intitulado A tropa em shock com um único objetivo: destruir. A leitura das postagens e diálogos feitos no grupo mostra que, inicialmente, a “proposta” era invadir posts daqueles identificados como adversários, reagindo com uma enxurrada de risadas*, uma maneira de ironizar ou menosprezar o que estivesse sendo dito. Na prática, as ações vão muito além – e, em alguns casos, ultrapassaram a fronteira do mundo virtual. Diariamente, o grupo convoca seus integrantes para ataques em massa, conforme comprovam documentos obtidos com exclusivamente pelo GCN.

A partir do momento em que é dado o comando para atacar, as redes sociais do alvo, especialmente perfis no Facebook, corporativos ou pessoais, passam a receber ataques simultâneos. Fica claro que muitos dos que atacam não tem qualquer ideia de quem são seus alvos. Xingam, ofendem, agridem e expõem informações da pessoa, de seus amigos e familiares. Defender a vacinação, protocolos de saúde para enfrentar a Covid ou uso de máscaras basta para se tornar um alvo.


Pedidos de destruição e invasão :

 



Contra uma pessoa comum




Contra a Ordem dos Advogados de Franca




Contra uma campanha da Acif


| *Para quem não tem grande proximidade com a rede social,
| existem diferentes maneiras de mostrar alguma reação a
| quem publicou algo, desde uma simples curtida, a corações,
| carinhas de espanto, tristeza ou raiva e, claro, de risada.


Basta que alguém publique algo que desagrade um dos integrantes do grupo para que tenha essa publicação compartilhada dentro do grupo. A repercussão é imediata: uma onda de comentários agressivos, memes e frases ofensivas invadem a postagem do alvo. Um simples comentário feito por qualquer pessoa, como por exemplo o apoio à vacinação, pode se tornar o gatilho para os ataques. Personalidades conhecidas e instituições reconhecidas também não estão imunes. Candidatos, jornalistas, a Acif, a OAB e até a Prefeitura de Franca já sentiram a violência da ação.

Entre os alvos, bloquear os autores do ataque está longe de resolver os problemas. Faz apenas com que os membros do grupo partam para um ataque na página de parentes, namorados, maridos, mulheres e amigos. Em muitos momentos, a pessoa que sofre os ataques recua, exclui a postagem ou pede diretamente a um dos ofensores que parem. Para o grupo, é sinal de vitória, comemorada com troféus e, claro, muita ironia.



Membro do grupo, Viviane Bertoni Araujo comemora ter sido procurada por uma pessoa que pedia que parassem os ataques a ele e à namorada.




Laisa Freitas chegou a conversar com um alvo dos ataques, Edna de Siqueira. A mulher chegou a acreditar que o perfil de Laisa tivesse sido invadido por outra pessoa que estaria fazendo os ataques. No grupo, fica claro que Laisa atacou e depois ainda enganou a mulher.


O Grupo

O grupo foi criado por Eduardo Mj em setembro de 2020. Usando uma máscara que lembra proteções a gás tóxico, é difícil confirmar se o perfil é real ou feito apenas com o propósito de propagar o ódio pela rede social. 



Informação no perfil de Eduardo Mj diz que grupo foi criado em 24 de setembro de 2020.

Segundo seus membros, os 422 integrantes são o extrato de um grupo muito maior, que teria mais de 5 mil membros. Mas como é difícil administrar tantas pessoas ao mesmo tempo, o A tropa em shock faz o trabalho de selecionar alvos e usa o grupo maior quando precisa, também, de uma onda maior. "Lá é bom para bombar, mas aqui é o gabinete do ódio. Quando eu preciso de ajuda para algo mais pessoal e de pessoas sem escrúpulos, tem que ser aqui", escreveu Dalton Alexandre.



Os próprios membros se chamam de "pessoas sem escrúpulos"




Ou, ainda, de "BOPE do hahaha"


Apesar de muitos membros de Franca, ávidos por atacarem e vandalizarem digitalmente postagens que circulam entre os moradores da cidade, seus membros estão em diferentes cidades e estados do País, assim como seus alvos. 


Os alvos

São muitas as pessoas que já sentiram o impacto de estar na mira do grupo. Um deles foi Leornardo Araújo. Em 19 de novembro ele postou uma crítica a algumas posturas adotadas no feriado da Consciência Negra. "É só chegar o dia da Consciência Negra que os ratos saem da latrina com esse papo de "consciência humana". Consciência Humana pra mim é grupo de RAP seus lixos. E outra coisa, consciência humana a gente já tem porra. Ou essas pragas tão assumindo que são seres rastejantes e parasitas? Racistas otários! (sic)", desabafou.

Em 17 de fevereiro, quase três meses depois, a publicação chamou a atenção do grupo, levada por Alessandra Savignon. "Uai, se já temos consciência humana, segundo ele, então os negros não têm consciência e precisam de um dia de consciência negra? É isso o pensamento dele ou estou equivocada?", perguntou. Pronto! Foi o gatilho para o grupo descarregar em massa ataques no perfil de Leonardo, que reclamou da invasão poucas horas depois. "Gente, meu perfil está sendo invadido pela seita de Virgens de 10 anos bozonarista (sic). Não liguem para os comentários e 'hahas'", escreveu.

 



Leonardo Araújo confirma a invasão a seu perfil


Os assuntos que chamam a atenção e se tornam preferência para ataques são diversos, mas na sua maioria são postagens que discordam dos posicionamentos do presidente Jair Bolsonaro. Ser favorável à vacinação contra Covid, defender o direto dos gays ou outras minorias, criticar o governo, debater assuntos como racismo ou mortes provocadas pelo coronavírus é correr risco real de se tornar alvo do grupo.


O “soviético”

Em muitas postagens, o comando para o grupo começar os ataques em massa é dizer que precisam fazer um "soviético" na vítima. O termo foi usado no filme "Cidade de Deus", em uma cena em que o responsável por um ponto de tráfico foi metralhado por várias crianças que, assim, tomaram o poder. No grupo, "sovietizar" alguém significa entrar no perfil, comentar e reagir com risada no maior número de postagens possível, mesmo as mais antigas. A ação, claramente, deixa a vítima intimidada com desconhecidos vasculhando e comentando em mensagens de anos atrás, muitas vezes resgatadas fora de contexto. Nem mesmo bolsonaristas que façam críticas isoladas a alguma conduta do presidente da República são poupados.


Alguns dos alvos da Tropa em shock:














Grupo coordena ataques à Acif, OAB e Prefeitura de Franca


Na mira da tropa em shock, também estão instituições de Franca. Nos últimos meses, membros do grupo coordenaram invasões e ataques a uma campanha da Acif de Franca, que pregava cuidados durante a quarentena, uma live da OAB de Franca que contava com a presença do vice-presidente da subseção, de um juiz de Direito e de um promotor de justiça.

O ataque à Acif aconteceu em 1o. de Outubro de 2020. Naquele dia, a Associação Comercial veiculava a campanha "A Pandemia não acabou", com uma série de depoimentos em vídeos de pessoas que tinham perdido entes queridos vítimas da Covid. A campanha, que tinha por objetivo orientar as pessoas sobre os cuidados para evitar a doença, desagradou membros do grupo e virou alvo. "A associação comercial da minha cidade, fez uma campanha estampando a cara dos mortos em placas de outdoor, preciso fazer um ataque em massa, mas com comentários, falando que a campanha é lixo", escreveu Nay Dandara.




A ação surtiu efeito imediato e a publicação da Acif no Facebook recebeu uma enxurrada de comentários negativos e ataques. "(...) que campanha lixo, ao invés de ressaltar o cuidado que as empresas estão tendo, pra ganhar vendas, estão assustando os clientes (sic)...” postou Wesley Patrick Silva, outro membro do grupo.




NA OAB

A subseção da OAB de Franca também recebeu atenção da tropa. No dia 5 de novembro de 2020, a instituição promoveu uma reunião de estudos sobre o caso Mari Ferrer - que ganhou grande repercussão no final do ano passado e gerou protestos ao termo "estupro culposo". Sem nenhuma explicação de motivos, Wesley Patrick Silva se limitou a dizer no grupo "Precisamos invadir isso!!! (sic)". A reunião teve a participação do advogado Acir de Matos Gomes, vice-presidente da OAB de Franca; do promotor de justiça Cláudio Luis W. Escavassini e do juiz Paulo Sérgio J. Filho.




NA PREFEITURA

O Covizap, serviço criado pelo prefeito Alexandre Ferreira (MDB) para receber denúncias da população contra empresas que desrespeitarem medidas sanitárias contra a covid-19 em Franca, também foi alvo. O mesmo Wesley Patrick Silva pediu "ajuda" para atuar na postagem do governo municipal.

As postagens da prefeitura passaram a ser bombardeadas com ataques ao serviço de denúncias.





Jornalista Corrêa Neves Jr. e GCN: alvos preferenciais

O jornalista Corrêa Neves Jr. é um dos alvos francanos que mais aparecem no grupo. Desde outubro do ano passado, membros da tropa acompanham as lives realizadas pelo jornalista na página do GCN no Facebook. Além de sistematicamente tumultuarem as transmissões, com ataques pessoais, eles ainda marcam pessoas que concordam ou apoiam o jornalista e partem para o ataque contra elas também.

O membro Wesley Patrick Silva é um dos que convocam os ataques contra o jornalista com mais frequência. No dia 28 de dezembro, ele usou uma postagem de uma foto de Corrêa Neves Jr, acompanhado da mulher, para fazer ofensas. "(...) esquerdista lixo, vereador vendido, empresário caloteiro, me ajudem a zoar lá (sic)", escreveu.




Em fevereiro, o GCN publicou uma matéria sobre uma postagem de Viviane Bertoni Araújo, mulher do chefe da Guarda Municipal de Franca, Coronel Araújo, que propunha a criação de um grupo que expusesse, para constranger, as pessoas que estimulam denúncias de descumprimento das regras de combate à disseminação do coronavírus. Viviane é membro da Tropa em shock e, seu marido, justamente responsável por coordenar as operações de apoio à fiscalização no município. Imediatamente, o grupo colocou sua operação de ataque em prática. 

 


Leitores do GCN que eventualmente discordem de medidas do governo, defendam medidas de isolamento durante a pandemia ou sejam favoráveis à vacinação também acabam virando alvo. A leitora Rejane Gonçalves foi uma. Em 25 de janeiro, o mesmo Wesley Patrick Silva divulgou o perfil dela no grupo, dizendo que era preciso "destruir esse perfil com hahaha", para que os membros dessem o tal "soviético". Para Rejane, o grupo é formado por "loucos e mentirosos". Ela diz que todos precisam trabalhar, mas as vidas são prioridade. "Para isso dependemos de consicientizaçao e vacinação", afirma, garantindo não se sentir intimidada. "Precisa muito mais do que um simples 'hahaha' para me calar".



As ações do grupo podem, no caso do jornalista Corrêa Neves Jr, ter transcendido as barreiras da internet. No dia 23 de fevereiro, faixas anônimas, atacando o jornalista Corrêa Neves Jr., foram colocadas em avenidas de Franca. Colocadas na madrugada, muitas o chamavam de “jornaleiro”, o mesmo termo usado para se referir a ele numa postagem de Viviane Araujo e, depois, no grupo, poucos dias antes da colocação das faixas.

Além disso, a página do Facebook que divulgou a colocação das faixas com maior velocidade, logo na madrugada, foi a Página De Olho em Franca, que é onde o mesmo Wesley Patrick Silva diz que trabalha.



O termo “jornaleiro” usado no grupo e em ataques pelas ruas de Franca



Perfil de Wesley Patrick Silva onde ele diz que trabalha na empresa Página De Olho em Franca

“Fica claro, por todas as postagens, que nunca foi um grupo para discutir, ou, eventualmente, se opor a uma ideia. É, isso sim, uma máquina de destruição, que opera no submundo da internet e tem ramificações em Franca. Imagine se, no mundo real, 422 pessoas se unissem para atacar alguém, protegidas por máscaras. Além de covarde, seria um crime indefensável. É exatamente isso que essas pessoas fazem, no ambiente virtual, e sua conduta não é menos criminosa. Atacam, constrangem, incitam violência, avançam sobre amigos e famílias. Além de doentes, são perigosos e precisam ser civil e criminalmente responsabilizados”, diz o jornalista. “Nesta semana, vou levar todo o material que conseguimos reunir à Polícia, ao Ministério Público, à Secretaria de Segurança Pública, às associações de imprensa. Vou também oficiar o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, que conduz o inquérito das Fake News, porque aparentemente o que começou em Brasília tem ramificações hoje em todo o Brasil”, afirma.

Para o jornalista Corrêa Neves Jr, os ataques que sofre lembram muito o que foi feito contra a repórter Patrícia Campos Melo, da Folha de S. Paulo, que passou a ser brutalmente atacada e perseguida desde que publicou uma matéria mostrando como os disparos em massa de mansagens por WhatsApp, com notícias falsas sobre adversários, beneficiou a campanha de Jair Bolsonaro. “Claro que, pela escala e intensidade, os ataques a ela foram muito piores, mas o princípio é o mesmo”, diz. “E há o doxxing, que Patrícia tão bem explica no seu livro, A Máquina do Ódio, onde ela mostra como funcionam e operam esses grupos. Um dos mecanismos dessa gente é invadir a vida privada, recortar postagens muito antigas e usar isso para desqualificar a pessoa”, diz. “Essa gente é pior do que a máfia, porque a máfia, pelo menos, poupava a família. Esses não poupam ninguém. São loucos, se orgulham da própria insanidade e não conhecem quaisquer limites”.  


Marília Martins: atacada com a suástica nazista

No dia 31 de outubro de 2020, ainda durante a campanha eleitoral, a candidata a prefeita pelo Psol, Marília Martins, foi atacada durante uma reunião online com apoiadores. O comício virtual, no qual seriam discutidas propostas para a cultura, foi invadido por sete pessoas que, além de ofender e ameaçar a candidata, postaram a suástica nazista várias vezes. Durante a ação, os invasores chegaram a reproduzir um vídeo com uma marcha nazista, que misturava imagens de Hitler e Bolsonaro.

Na época, a candidata chegou a procurar o plantão policial, mas como não sabia se os perfis eram reais e qual era a origem do ataque, a denúncia acabou por cair no vazio. Simultaneamente, Viviane Bertoni Araujo postou no grupo A tropa em shock que "nossa singela visita na live da moça, gerou um BO (sic)". Disse ainda que era preciso "aumentar a carga". 



Dias depois, o ataque continuou. Em 2 de novembro, Marília postou uma nota de repúdio aos ataques. A reação de Viviane foi pedir mais ações no grupo. "Agora ficou bom, ela colocou nota de repúdio Go Tropa", publicou. 



Para Marília, esse foi um dos momentos mais difíceis da campanha eleitoral. "Por mais que seja esperado esse tipo de reação, é sempre impactante", disse ela que, agora, vai estudar quais medidas judiciais tomará sobre o caso. "Essas pessoas são tão covardes que a maioria tem perfil falso. Quando estão certos da impunidade, destilam ódio e tentam intimidar as pessoas. Estes ataques são subprodutos deste projeto de Brasil autoritário que está sendo construído a base de desinformação, negacionismo e violência por parte destes criminosos", disse ela que garantiu não se intimidar. "Na verdade, mostram a fragilidade de quem não tem argumentos ou propostas para melhorar a vida da coletividade. Sempre que bons projetos ganham visibilidade o gabinete do ódio se incomoda e por isso ataca. Então, é um medidor que o rumo é bom e estou no caminho certo."

Outros candidatos

Apesar de ter sido alvo do ataque mais violento, outros candidatos nas eleições municipais de 2020 também receberam a atenção do grupo, como o Coletivo da Cultura, uma candidatura coletiva de vereadores pelo PT, e o candidato a vereador pelo Psol, Guilherme Cortez



Wesley Patrick Silva também ironiza o Coletivo




Viviane pede "hahahas" na página do Coletivo da Cultura




Guilherme Cortez também foi alvo 


O grupo A Tropa em shock é oculto. Ou seja, uma busca no Facebook não dará resultados, apenas para quem for convidado a participar. Essa é maneira que eles encontraram para manter a coordenação dos ataques em massa nas sombras, fora do radar as autoridades. Inclusive, o criador do grupo reforça para que seus membros não o mencionem em nenhum comentário público.




Em seu livro "A Máquina do Ódio", a jornalista Patrícia Campos Melo, que foi uma das primeiras vítimas da violência digital em massa, relata o perigo que grupos como A Tropa em shock representam para a própria democracia. "Nas 'democracias iliberais', segundo o vernáculo do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, basta inundar as redes sociais e os grupos de Whatsapp com a versão dos fatos que se quer emplacar, para que ela se torne verdade - e abafe as outras narrativas, inclusive e sobretudo as reais."

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