A alta do preço dos alimentos nas prateleiras dos supermercados vem assustando o povo francano. Rituais como compras mensais e aqueles produtos “queridinhos” estão deixando de ser realidade na hora de abastecer a geladeira. Segundo levantamento da APAS (Associação Paulista de Supermercados), o setor varejista alimentar fechou 2020 com inflação de 15%.
Liderando o aumento no setor alimentício, carnes, leite e cereais apresentaram alta de 25,8% no ano passado. A carne bovina registrou 16,3% e a suína 31,5%. Os números são de dezembro, mas já em janeiro o índice de preços dos supermercados registrou uma inflação de 1%. Mostrando uma acomodação em diversos produtos, tudo isso em decorrência ao fim do auxílio emergencial, segundo a APAS.
Com o aumento em quase todos os setores alimentícios, as pessoas se adaptam como podem. Inclusive, mudam a sua rotina de compras. A revisora de pesponto Régima Simone Resende conta que deixou de comprar a carne bovina devido ao aumento no preço. Agora, ela opta por comprar carne de frango - se estiver na promoção. “Eu deixei de comprar carne vermelha por causa do preço. A gente não dá conta. Procuro comprar sempre frango. Isso se ele estiver na promoção também. Além da carne, precisei trocar as marcas dos alimentos. Fruta por exemplo é sempre a da promoção. Porque também está bem caro. Então a gente vai se readequando à situação e procura comprar o que está mais barato”, contou Régima, de 56 anos.
Abobrinha (28,47%), chuchu (25,69%) e cebola (23,70%) foram os itens que registraram os maiores aumentos. No caso da cebola, o principal motivo foi a quantidade de chuvas fortes no principal estado produtor (Santa Catarina). Completam a lista, melão (23,60%), tomate (22,32%), abacaxi (20,39%), pepino (19,32%), couve (12,52%) e alface (10,47%).
Além de se readequar aos preços, Régima disse que nesta semana suas refeições foram feitas no restaurante Bom Prato, que oferece mais de 1,2 mil refeições a R$1 real. “Estava até com um pouco de receio de falar, mas com essa situação não podemos ter vergonha. No meio de semana eu procuro comprar no bom prato. Porque lá você compra duas marmitas, dá para quatro pessoas e fica mais barato. Com os quatro reais que gasto eu não compro nem batata. Então estamos tentando reduzir ao máximo”, finalizou Régima.
Os combustíveis
O economista Adnan Jebailey explica que a alta do dólar e o preço do diesel acabam refletindo no consumidor final. Além do aumento de consumo no domicílio, devido as restrições da pandemia causada pela covid-19. “Com a alta do dólar, os alimentos como arroz, feijão e carne que são produzidos e cultivados aqui no Brasil estão sendo mais exportados. Os produtores preferem exportar ao invés de manter esses produtos no mercado interno. Um outro fator é o aumento do preço do diesel. De maneira geral, os produtos brasileiros são transportados pelas rodovias e com o aumento do diesel isso acaba chegando no consumidor final, nas prateleiras. E com isso acaba aumentando o preço dos alimentos” contou o especialista francano.
Com a gasolina subindo semanalmente, é difícil encontrar alguém que pense com otimismo o cenário brasileiro. O professor de educação física André Roccioli, além de trocar o ingrediente principal das refeições, não vê um bom futuro para o país. “Comecei a comprar mais frango que carne vermelha, acho que só por enquanto. Mas acho que vai piorar ainda mais, pois essa medida de congelar os preços da Petrobras, quem vai pagar a conta do prejuízo somos nós no aumento de impostos. Estou desmotivado com o país", contou o professor.
A rotina do fotografo Dimas Ferreira também foi prejudicada com o aumento dos alimentos. Ele deixou de comer carne vermelha por aves, peixes e suíno.
“Minha rotina alimentar mudou totalmente. Coisas que a gente de casa comia antes, não estamos comendo agora. Conseguimos substituir a carne bovina, por exemplo. Outros dois produtos que mudamos a forma de cozinhar é o óleo e o gás. Estamos deixando de comer assados e frituras, para diminuir os gastos”, afirmou o fotógrafo.
Menor poder de compra
Os entrevistados também relataram que além dos preços das carnes, sentiram o poder de compra ainda mais baixo. Compras mensais passaram a ser semanais, aproveitando as promoções dos supermercados. E isso, segundo Adnan, tem uma explicação. “A inflação impacta diretamente na vida das pessoas. Com esses aumentos em todos âmbitos, seja ele no combustível, seja ele no supermercado, os salários das pessoas ficam com um menor poder de compra. E Franca já tem uma má distribuição de renda. Hoje 77% da população ganha até dois salários mínimos. Ou seja, quando aumenta a inflação, impacta ainda mais a vida da população do Brasil e sobretudo do povo francano” afirmou Adnan.
Ana Carolina Oliveira conta que sentiu na pele o poder de compra cair. E disse ter abandonado as “bobeiras” para levar o que realmente é essencial. "Nos últimos meses senti o poder de compra cair ainda mais. Ir ao supermercado e conseguir comprar os itens básicos está mais caro e é preciso 'dar uns pulos' para conseguir colocar no carrinho e levar para casa o que realmente precisamos".
"Tenho optado sempre por produtos promocionais, substituí grande parte da carne vermelha por ovo e frango. Também aumentei o consumo de verduras e frutas e abandonei aquilo que poderia deixar de levar: danones, bolachas, congelados", disse Ana Carolina.
A postura do francano se reflete nos supermercados. Em uma voltinha nos dias de “promoções” é possível notar um fluxo maior nas filas. As ofertas ajudam a conter os gastos, mas dificulta nas compras maiores. "Mudou a rotina no quesito para comprar alimentos em supermercados com os alimentos em ofertas. Deixo de comprar, por exemplo, uma carne mais cara optando por uma mais em conta. Antes, fazia pratos mais variados, agora nem tanto. O que fazia e sobrava mais, como no caso arroz, agora a medida é feita para não sobrar", finalizou a jovem Gabriela Sturaro Junqueira, de 21 anos.
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