Amantikir

Por Sônia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Coisa linda em nossa língua são os topônimos herdados das diferentes etnias que por aqui se espalhavam livres e contentes até a chegada dos invasores. Estima-se que fossem oito milhões os indígenas que tinham uma cultura peculiar e se expressavam em 50 dialetos. Mas, como registra a história, os portugueses não demonstraram interesse por isso. Tinham-se como civilizados e agiam como bárbaros. Sua sanha exploradora mirou primeiro a madeira e depois os minerais; também tentou usar a mão de obra dos índios que não se submeteram e morreram aos milhares, o que levou ao tráfico de africanos. Ainda está por ser escrito em pormenores esse capítulo vexatório de nossa formação, que começou com exploração e continua até hoje pelos que se sentem como os poderosos do tempo de Dom Manuel e outros reis que o sucederam- João, Sebastião, Henrique, Antônio, Filipe, Afonso, Carlos, Pedro...Nossos problemas atuais derivam de cinco séculos de arrogância, brutalidade, desrespeito.

Se a maioria das tribos que povoavam a Terra dos Papagaios, um dos primeiros nomes de nosso país, foi dizimada aos poucos, a língua tupi continuou viva até o século XVIII, sendo falada de norte a sul.E quando o nhengatu, língua geral, mistura de português e tupi, foi proibido pelas Cortes de Lisboa, já havia inscrito sua oralidade naquilo que viria a ser conhecido como português do Brasil: a pronúncia forte das vogais e os sons anasalados que nos distinguem. Aliás, mesmo depois de a lei lusitana proibir o uso, o idioma continuou vivo e forte no Pará e Amazonas até o final do século XIX. Prova de que não foi extinto, neste 2021, no município brasileiro de São Miguel da Cachoeira, divisa com Venezuela e Colômbia, o nhengatu é uma das três línguas oficiais- as outras são o português e o espanhol; e há um curso desse idioma na USP, o que descobri recentemente.

Não é fácil banir uma língua por decreto. As palavras resistem como os seres vivos, adaptando-se. Que se veja o nosso léxico, ao qual se somam dez mil nomes de origem tupi. Entre eles estão os topônimos, com sua comovente poeticidade designando os lugares com a pureza de quem os olhou pela primeira vez. Destaco alguns. Aiuruoca ( morada do papagaio do peito roxo); Baependi (rio onde mora um monstro marinho); Camanducaia (lugar de favas queimadas); Itanhandu (onde se avista a ema de pedra); Itapeva (que tem uma pedra achatada); Itatiaia (idem pedra pontuda); Piranguçu (idem ibidem pedra vermelha de grande tamanho). São sete dos trinta e oito municípios que me chamam para conhecê-los nos vales onde se esparramam com suas pequenas populações. Estão cercados por montanhas, cachoeiras, rios, flora e fauna quase intocadas- o que é um milagre, porque o meio ambiente em nosso país nunca teve a atenção que mereceria dos governos e o viés destruidor do atual não nos deixa esperançar.

Quando tiver recebido a dose de vacina a que faço jus como brasileira que vem trabalhando desde os 18 anos e já recolheu muitos impostos, vou começar a sonhar com uma viagem às citadas cidadezinhas.Elas estão todas assentadas em uma serra considerada das maiores cadeias montanhosas do sudeste brasileiro, abrangendo parte do nosso estado, Rio e Minas. É de extrema importância ecológica ao integrar o bioma Mata Atlântica, com formações mistas de campos, florestas e bosques de araucárias. Que serra é essa? Talvez o leitor já tenha descoberto. É a Mantiqueira, cujo nome em tupi é um primor, um verso, uma emoção que pincei para título dessa crônica. Amantikir é como os índios a chamavam, devido à grande quantidade de nascentes e cursos d’ água que nela brotam.

Se buscarmos o sentido etimológico mais profundo de Amantikir encontraremos “serra que chora”. Não é mesmo poético?

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