Já se passou um ano desde que ouvimos falar pela primeira vez no novo coronavírus. De lá para cá, foram mais de 100 milhões de pessoas infectadas e mais de 2 milhões de vidas perdidas em todo o mundo, para um vírus que pesquisadores e comunidade médica ainda tentam desvendar. E foi no momento em que a Covid-19 surgiu, em dezembro de 2019, na China, que a ciência começou um processo importante, exaustivo e extremamente necessário: a busca pela vacina.
Há quem questione a rapidez com que as vacinas apareceram, já que nunca antes foram feitas de forma tão acelerada. Mas o fato é que, nunca antes também, uma doença exigiu tanto esforço, agilidade e prioridade dos laboratórios. O novo coronavírus fez o mundo parar e voltar a vida normal passou a ser o único objetivo.
De acordo com Dr. Christiano Sousa Rodrigues da Cunha, médico geriatra da Unimed Franca, diversos fatores foram essenciais para que a vacina contra o Sars-CoV-2 fosse desenvolvida, autorizada e produzida em um prazo muito inferior ao das demais imunizações existentes. “Em primeiro lugar, a solução para o fim da pandemia é um desejo mundial, portanto, muitas iniciativas públicas e privadas investiram - e ainda investem - uma quantidade enorme de dinheiro nesses estudos. Além disso, como a Covid-19 tomou proporções mundiais, em apenas um ano, cerca de 280 mil estudos científicos foram produzidos com um único objetivo: minimizar os efeitos do vírus na saúde das pessoas e, consequentemente, na economia. Outro ponto a se levar em conta é que, como há muitas pessoas infectadas ao mesmo tempo, em todo o mundo, é possível obter respostas científicas muito mais rápidas”, explica.
Ainda segundo o médico, as vacinas partiram de tecnologias já existentes, o que acelerou o processo de desenvolvimento. “Soma-se a isso o fato de os governos do mundo todo estarem realizando aprovações regulatórias emergenciais para o início imediato das imunizações”. No Brasil, o órgão responsável por essas aprovações é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que considerou, até o presente, duas vacinas seguras e eficazes: a CoronaVac, do Instituto Butantã, e a da AstaZeneca/Oxford, produzida pela Fiocruz. “Ambas são muito seguras, com poucos efeitos colaterais e eficazes em reduzir drasticamente as formas moderadas e graves da doença”, completa.
Atualmente existem quase 300 vacinas contra a Covid-19 em desenvolvimento e, cerca de, 70 delas estão em fase de testes em humanos, sendo que algumas já foram autorizadas pelos órgãos regulatórios de diversos países e estão sendo utilizadas para imunizar suas populações. De todas essas vacinas, três tipos são mais comuns “Temos as vacinas com o vírus inativado, que têm como base um vírus que passou por um tratamento químico que o torna incapaz de se replicar, como é o caso da CoronaVac; as vacinas com vetor viral não replicante, que utilizam um adenovírus inofensivo como meio de transporte para uma proteína do Sars-CoV-2, que tem como exemplo a vacinas da AstraZeneca/Oxford, da Janssen/Johnson & Johnson e do Instituto Gamaleya (Sputnik V); e as vacinas com RNA mensageiro ou mRNA, que o mRNA leva a mensagem do gene da proteína “S” do Sars-CoV-2 para as células, ativando a resposta imune do nosso corpo, sendo baseadas nessa estratégia as vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna”, explica Dr. Christian.
Outro importante questionamento que tem surgido trata da eficácia das vacinas disponíveis, mas o geriatra garante que todas elas são extremamente seguras. “Nos estudos de vacinas, há um grupo grande de pessoas que recebem a vacina em teste e outro grupo de mesmo tamanho que recebem um placebo. No estudo da vacina da Pfizer, por exemplo, que contou com mais de 18 mil pessoas em cada grupo, houve 8 casos no grupo dos vacinados e 162 casos no grupo dos que receberam placebo. Então, a eficácia ou a relação de incidência entre os dois grupos é 8/162 ou 0,95, o que sugere uma eficácia de 95%. Mas mais importante do que a eficácia global da vacina é o nível de proteção a casos moderados e graves, de tal forma que as pessoas já imunizadas, que eventualmente tenham a doença, não necessitem internação”, comenta. Quanto às informações que correm nas redes sociais sobre uma possível alteração do código genético, o médico é enfático: “Nenhuma das vacinas é capaz de qualquer alteração no genoma humano. Isso não passa de Fake News”.
As vacinas são o primeiro passo para o fim da pandemia do novo coronavírus, mas a imunidade não começa imediatamente. “Existem variações entre as vacinas já disponíveis, mas em torno de 2 a 3 semanas após a segunda dose os indivíduos estão imunes. Ainda pode haver infecção com o Sars-Cov-2, porém esta infecção terá grande chance de ser assintomática ou com poucos sintomas. Formas graves praticamente não ocorrem em quem já recebeu as duas doses da vacina”, esclarece o médico.
A reinfecção pelo novo coronavírus também é um tema que causa dúvidas. Afinal, é possível se infectar pelo vírus mais de uma vez? O Dr. Christiano explica que a reinfecção pelo Sars-Cov-2 pode ocorrer, mas é muito rara. “Diante da escassez de vacinas, é possível que no decorrer dos próximos dias haja uma mudança de recomendação em relação a vacinação das pessoas previamente infectadas pelo Sars-Cov-2, deixando este grupo como a última prioridade na vacinação populacional. Alguns estudos mais recentes têm evidenciado a necessidade de apenas uma dose de uma vacina de RNA para que as pessoas já infectadas desenvolvam níveis protetores elevados de anticorpos contra a Covid-19”, destaca.
Além da vacinação dos profissionais da saúde que é importante para proteger aqueles que estão envolvidos no cuidado dos doentes com Covid-19 e da população em geral, as pessoas com idade acima de 60 anos fazem parte do grupo mais prioritário, pois apresentam maior chance de desenvolver formas graves da doença, necessitando internação hospitalar. “A vacinação em massa da população será capaz de controlar a pandemia, mas a “imunidade de rebanho” só será atingida quando 75 a 80% das pessoas estiverem vacinadas. Até lá, precisaremos manter as medidas de distanciamento social, de higiene das mãos e o uso de máscaras, já que infecções assintomáticas e casos leves ainda podem ocorrer em algumas pessoas já vacinadas”, diz o dr. Christiano.
E efeitos colaterais existem? De acordo com o médico, toda e qualquer vacina apresenta alguns efeitos colaterais. “Os mais comuns nas vacinas contra Covid-19 são dor, edema e calor no local da aplicação, febre baixa, dor muscular, fadiga, dor de cabeça, náuseas e episódios de diarreia. Esses sintomas se iniciam poucas horas após a vacinação e se resolvem em até 48 a 72 horas, na maioria dos casos. Há uma tendência de pessoas mais novas apresentarem mais reações vacinais que os idosos”.
O Dr. Christiano esclarece ainda que é cedo para supor que a doença será extinta. “Os vírus têm uma grande capacidade de mutação e é possível que tenhamos que ser vacinados periodicamente contra novas variantes que venham a surgir do Sars-Cov-2, até que se tenha quase a totalidade da população mundial vacinada. É bom deixar claro que a vacinação ampla da população será a única forma de voltarmos à vida normal e deveria ser prioridade absoluta para o governo. Com o progresso da vacinação haverá gradativa redução da mortalidade e da pressão por leitos hospitalares”, destaca.
Se as pessoas devem se vacinar? Dr. Christiano garante que sim e que não há motivos para medo ou dúvidas. “Todas as vacinas já existentes e as específicas para a Covid-19 são submetidas a ensaios clínicos rigorosos. Conforme o seu desenvolvimento progride, a segurança continua sendo avaliada. E, mesmo quando já estão em uso geral, cientistas, órgãos governamentais e organizações de saúde pública continuam a coletar dados sobre possíveis efeitos adversos. No caso das vacinas contra o novo coronavírus, o tempo recorde de desenvolvimento, produção e distribuição não invalida sua eficácia e segurança. As vacinas contra o novo coronavírus têm mostrado grande eficácia contra as formas graves da doença e são nossa esperança para a redução da mortalidade e o retorno a “normalidade” social. Todos devem ser vacinados!”, conclui.
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