Ando desatento de tanto me concentrar. Metade desligado, vivo indisposto. No horizonte das utopias a solidão é efeito colateral. Meus olhos só encontram o vazio. Não o vazio reflexo entre o espelho e a córnea triste. O que repugna é o sem viço plastificado. Para os homens da minha idade toda métrica é sintética. Sodoma pede incêndio que a consuma, Brasília fede. Espero minha morte numa inundação de poesia. Esse país continua matando os leitores de Drummond. Franca estrangulada amanhece vomitando Maiakósvski; sobre o vazio prolongo o gerúndio sem fim.
Morro se não bebo água viva, comprei torto arado e vou beber. Itamar Vieira Junior é um sinal de que deus tem planos para a Literatura e nem tudo está perdido.
Todo mundo faz cara feia para o gerúndio, estou apenas existindo.
Soube com clareza que tudo é correspondente, assim: cada coisa ainda pode ser tudo porque coisa alguma está pronta; o embrião é reprise - essa metade de mim pensa coisas estranhas... Não me acanho em dizer que não conheço pessoa sã. Crianças ensaiam insanidade. Sabia que o inteiro de tudo está em movimento e cada parte do inteiro tem movimento diferenciado? (que bobagem!).
As pessoas estão inconscientes de suas potencialidades. A novidade troca de pele feito áspide. Queria ver com seus olhos o momento em que troca de fantasia.
Hoje estou intransitivo, por isso deixo o gerúndio respirar. Não aguento mais ser personagem de trama alheia. Nada sei além de estar sendo incômodo.
Reconheço que me perdi porque já passei por aqui, essa brisa leve artificial.
Por que sinto a sanha de raspar minhas gengivas com arame, arrancar os dentes com alicate e comer as unhas? Se escrevo em primeira pessoa é em respeito aos outros. Concluí que Sartre está velho, o inferno não são os outros; o inferno sou eu. No outro noto o que me falta, o que em mim excede. Nos olhos de quem reparo encontro as aparas que travam meu olhar.
Mas concordo que carecemos de realidade, é necessário aproximar ideias desencontradas em orações simplificadas. O mais é resistir.
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