João Manoel, Vitor Donizete, Francisco e Antonieta. Quatro estrelas que se apagaram. Quatro famílias que perderam um de seus membros para o coronavirus. Os familiares contaram ao GCN como eram essas pessoas em vida. As virtudes e o legado deixado por cada um. As histórias ilustram o drama vivido por centenas de pessoas após Franca superar a marca de 300 óbitos por coronavírus na última terça-feira, 9 de fevereiro.

João Manoel da Silva
72 anos
Morreu em 29 de setembro de 2020
A indústria calçadista foi uma segunda casa para João Manoel. Durante a vida, trabalhou em grandes empresas, como Samello, Vulcabrás, Paragon, Rainha e M2000. Mesmo com a aposentadoria, não deixou o oficio e seguiu na indústria, trabalhando em fábricas do Pará e Paraná.
João Manoel sempre foi o esteio e alicerce da família. Em 1981, construiu sua casa no Parque São Jorge, onde residia com a esposa, Maria Inês Andrade Silva, e os dois filhos, Alex Adriano e Helen Cristine. Embora ele tenha morado fora, retornava à sua casa sempre que podia.
A morte de João Manoel foi muito dolorosa, principalmente, para o filho Alex. “Só Deus, minha noiva, Maiara Alves, e minha família para me ajudarem a seguir em frente”, diz. Ainda assim, a dor é muito grande. “Nunca senti uma dor assim. A saudade é enorme e eterna”.

Vitor Donizete Brito
63 anos
Morreu no dia 31 de janeiro de 2021
210 km separam Frutal (MG) de Franca, distância vencida há mais de 50 anos por Vitor Donizete. Desde então, o mineiro pasou a chamar o interior de São Paulo de casa. Aqui, construiu família e passou os principais anos de sua vida ao lado de sua mulher, Maria Aparecida de Carvalho, e dos quatro filhos, Rodrigo, Tatiane, Lucas e Ana Carolina.
Há 17 anos, num distante dezembro, Vitor sofreu um infarto e precisou colocar cinco pontes. Depois, teve problemas com diabete, pressão alta e rins. Sua mulher, Maria Aparecida, de 64 anos, conta que desde então viveu com medo de perder o marido em decorrência dos problemas cardíacos. No final, foi a a covid-19, uma doença respiratória, que o levou. “Vivemos 17 anos com medo dele morrer por conta dos problemas cardíacos, mas não foi. Ele ainda tinha muita vida pela frente. E, de repente, foi encerrada”.
Além dos problemas cardíacos, Vitor lutou durante anos contra a depressão. Superou o distúrbio vendendo títulos de capitalização e conversando com pessoas que passavam próximas a uma lotérica no Parque Vicente Leporace l, na região Norte de Franca. “Diversas pessoas aqui do Leporace estão sentindo muito a falta dele. Ali na lotérica, só vão falar coisas boas dele”, diz a viúva.
Dentro da casa esvaziada, Maria Aparecida lembra do marido com muita saudade. “Um pai maravilhoso. Um avô excepcional. O neto era o companheiro dele. Um pai muito preocupado com todos os filhos”, disse.

Francisco Ferreira Filho
78 anos
Morreu no dia 3 de fevereiro de 2021
“Deu tudo o que tinha para família”. As palavras de Edneia de Sousa Batista, de 48 anos, definem quem foi Francisco em vida: um homem que cuidou e protegeu sua mulher e filhos. Casados durante 27 anos, Edneia afirma que o sentimento pelo marido será eterno. “O amor da gente é eterno e eu o amei muito. Nós dois nunca brigamos. Não tenho nada para reclamar”.
O ex-morador do Jardim Planalto, na região Leste de Franca, trabalhou como pedreiro e motorista. Nos últimos tempos, estava aposentado. Edneia o descreve como “uma pessoa alegre e excelente, que criou todos os filhos”. O “superpai” foi sempre presente na vida dos seis filhos: Paulo Sérgio, Zayner Matheus, Dionatan Iylon, Luís Candido, José Carlos e Ericson Sousa.
Ericson, de 28 anos, tem um carinho extra pelo pai. Francisco o adotou quando tinha dois anos de idade. Desde então, o laço afetivo entre pai e filho superou qualquer barreira sanguínea. “Sempre me tratou como filho dele, nunca me diferenciou dos outros, (éramos) todos iguais”.
O rapaz afirma que Francisco foi a melhor pessoa que conheceu. “Foi o melhor homem que conheci em minha vida! O melhor pai de todos! Ele não foi meu padrasto, mas sim, meu pai”.

Antonieta Rosa Borges de Camargo
71 anos
Morrei no dia 10 de fevereiro de 2021
Antonieta, ou ‘Tia Zizinha’, como era chamada, foi parte importante de muitas histórias ao longo da vida, especialmente de sua grande família. Vivia no bairro Vera Cruz, na zona Norte de Franca. Era mãe de cinco filhos (Marilaine, Marcelo, Marcos, Maurício e Magda), avó de oito netos e bisavó de cinco bisnetos. Viúva, por onde passou deixou “um legado de carinho, amor e respeito ao próximo”, lembra o sobrinho, Hevertom Talles Soterio.
Hevertom, de 24 anos, afirma que ela batalhou intensamente para vencer a batalha travada contra a doença. “Lutou até o último segundo. Infelizmente foi mais uma vítima da covid-19”. O GCN contou o drama vivido pela mulher que, na ocasião, esperou durante três dias por um leito de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo).
“Faltam até palavras para descrever o quanto ela foi e é especial”, diz Hevertom. “Até breve, tia. Espero um dia nos reencontrar. Obrigado por tudo!”, finalizou.
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