Foi no dia 17 de janeiro, um domingo, que o país viveu um dia considerado histórico. Nesta data, em São Paulo, a primeira brasileira foi vacinada contra o coronavírus. A vacina utilizada foi a Coronavac, desenvolvida por um laboratório chinês. Motivos de alegria e comemoração para alguns, mas de preocupação e receio para outros.
Isto porque, há uma parcela da população brasileira que não está convencida que o imunizante seja a solução para a pandemia que assola o mundo. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha, em dezembro, apontou que 22% da população brasileira não pretende tomar a vacina.
Franca tem representantes destes 22% . Dentre eles está Matheus Moreira, 22, servidor público. Para ele, seria arriscado se submeter a qualquer imunizante produzido no mundo, independente da origem. O jovem afirma o risco é devido ao curto período em que foi desenvolvida o imunizante. “Sempre tomei vacinas, mas não me sinto seguro com a velocidade que produziram especificamente a da covid”.
Matheus ainda fez questão de ressaltar que talvez, no futuro, ele possa mudar de opinião, pois quanto maior o tempo, mais estudos teriam e mais confiável seria o fármaco. “Pela agilidade e por ser em caráter emergencial, pulou vários protocolos de segurança no desenvolvimento das vacinas.” Ele conclui dizendo que mesmo quando houver doses para todas as pessoas, vai optar por aguardar. “A princípio, não. Prefiro aguardar mais tempo para possíveis estudos de efeitos a longo prazo, como de outras vacinas que duraram anos e décadas.”
Outra questão levantada por Moreira é em relação à origem da vacina. A Coronavac, por ser produzida na China, o deixa receoso. Ele não é o único. Na pesquisa do Datafolha foi questionado, dentre quatro países fabricantes, qual a pessoa tomaria – ou não. O país asiático obteve a maior porcentagem de negação: 50%.
“Achei muito estranho o modo como omitiram o começo da pandemia, como a mortalidade em Pequim e Hong Kong estiveram praticamente zeradas e omitidas, além da China ser comandada pelo Partido Comunista”, esses são pontos levantados por Moreira para justificar sua insegurança com o país.
Em outubro, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou que a vacina de Oxford possuía insumos de origem chinesa. Porém, para Matheus, este fato não o impediria de no futuro se imunizar com a vacina desenvolvida no Reino Unido. “Caso futuramente eu me sentir seguro para tomar, creio que a origem dos insumos não influenciaria. Mesmo que venha de vários países diferentes e a China ser um deles”.
O “pé atrás” com a importação do imunizante é um dos motivos de Juanna Marques, 58, ser contra a vacina. “Não temos certeza se a vacina está pronta ou não. Ela não é produzida no Brasil, é comprada na China ou em outros lugares. Não me sinto segura”.
Ela destaca também o temor pelo novo. Por se tratar de um novo vírus, uma nova doença e, consequentemente, uma nova substância de defesa, Juanna sente medo de possíveis efeitos colaterais. “É preciso fazer uma pesquisa antes, para saber se a pessoa possui algum tipo de problema que leve a uma reação errada do corpo.”
Ela ainda diz que cuida de uma tia de 89 anos, que também não vai se vacinar. “Ela é diabética, tem alguns problemas de saúde. Imagina se ela toma e começa a ter alguma reação alérgica? Deus me livre!”
Apesar do receio de parte da população, tanto a Coronavac, quanto a vacina desenvolvida pela AstraZeneca, foram aprovadas - por unanimidade - pelo órgão responsável por todos os remédios distribuídos em farmácias do Brasil. O presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, no dia da autorização das duas vacinas, garantiu a segurança do imunizante. “É preciso confiar na Anvisa e nas vacinas que forem certificadas pela agência. Quando ela estiver ao seu alcance, vá e se vacine.”
Outro francano contrário à vacina contra a covid-19, é Joás Miquéias, 30, servidor público. Ele elencou três pontos para seu posicionamento. O primeiro é a baixa taxa de mortalidade pela doença. “É menor que 2%, ou seja, a cada 100 pessoas que contraem, menos de duas vão a óbito. Por isso, não justifica essa corrida louca por medicamentos e vacinas, além do isolamento que afeta nossa economia.”
Ele acredita também que as informações sobre a pandemia geram pânico à população. “Acredito que informações infladas com uma doença que tem uma taxa de mortalidade tão baixa, gera pânico em todos.”
Assim como Juanna, Miquéias também teme possíveis efeitos colaterais. “Não tem total certeza da eficácia das drogas. Os especialistas mesmo dizem que elas podem ter efeitos colaterais, pois ainda não foram devidamente testadas. Para ela ser testada com eficiência, leva de seis a dez anos. Não seis meses como está sendo.”
Realmente, as vacinas contra o coronavírus foram desenvolvidas em um tempo mais curto em comparação a outras épocas e outras doenças. Até então a vacina desenvolvida com menor tempo na história havia sido contra a caxumba, nos anos 60, que ficou pronta em quatro anos.
Alguns fatores justificam a velocidade da produção contra a covid-19. Além da tecnologia oferecida nos dias atuais, o principal é por se tratar de uma pandemia – que atingiu o mundo todo. Portanto, cientistas e pesquisadores ao redor do globo se dedicaram e se uniram em prol de um único tema, uma única doença.
Altos investimentos e diversos estudos tornaram possível o rápido desenvolvimento de imunizantes, sem que se pulasse protocolos e etapas seguras. Ou seja, se antes os investimentos eram feitos vagarosamente e com cautela por conta do risco, a urgência atual fez governos e entidades privadas não medirem esforços para custear o trabalho de cientistas.
Além da crítica ao tempo de criação do imunizante, Joás destacou questões econômicas. Para ele, o alto valor investido pelo governo nas vacinas pode causar um “rombo” nas contas públicas. “O aumento de impostos prejudica o cidadão, enquanto eles estão gastando bilhões com a vacinação, com dinheiro do povo, causando um rombo na economia.”
A diferença é, mesmo, discrepante. Mas a ciência atesta a eficácia da vacina, que tem resultados humanos e econômicos imensuráveis. Mas, para um governo - o do Brasil - que já gastou mais de R$ 85 milhões em remédios sem eficácia comprovada no combate ao coronavírus, qualquer valor investido na segurança é incomparável.
Outro francano descrente com as vacinas contra a covid-19 é Dhêniel Ângelo de Assis Ribeiro, 23, barbeiro. Além de criticar o que classifica como “pouca” eficácia dos imunizantes, ele acredita que é "tudo jogo político" e que nenhuma vacina seria a cura comprovada da doença. “Não confio nessa vacina, principalmente, pelo fato de que ela não traz a real cura para doença, na verdade ela nem cura. Ela é nada mais, nada menos, do que um novo meio de o governo ganhar mais dinheiro por baixo dos panos, escondendo da população.”
Sem provas, ele ainda afirma que já houve óbitos diretamente relacionados ao imunizante. “Outro fator que me faz contrário é que pessoas já tomaram essa vacina e morreram, mesmo não tendo problemas de saúde antes de tomarem.”
ALERTA: É importante ressaltar que não existem registros nem, ao menos, relatos de casos como os alegados por Ribeiro.
Dhêniel também questiona a forma como os governantes têm lidado com as questões de isolamento social, que ajudam a prevenir o alto contágio do vírus. “O governo parar as cidades e os trabalhos das pessoas, para mim, já virou brincadeira de criança tipo ‘cobra cega’. As pessoas que não enxergam a verdade tentam ouvir os outros para chegar a uma conclusão e não sai do lugar.”
O barbeiro ainda afirma que, mesmo perdendo familiar e visto primos precisarem de internação por conta do coronavírus,a doença não é um problema. “Tive contato com todos eles. Sou assintomático. Trabalharia tranquilamente na linha de frente.”
Ele conclui dizendo que mesmo, com a doença controlada, ainda existirão pessoas em pânico. “Essa doença sempre vai existir daqui para frente. Não tem muito o que fazer. Essa vacina não vai adiantar nada, pois mesmo quando a doença esteja (sic) controlada, ainda vão ter pessoas hipócritas ou ‘xaropes’ de mais, dizendo que não vão nem na casa da própria mãe por conta disso.”
Contrariando o pensamento de Dhêniel, estudos da Unicef afirmam que a imunidade coletiva é sim uma solução para epidemias. “Se um número suficiente de pessoas em sua comunidade for imunizado contra uma determinada doença, você pode alcançar algo chamado imunidade coletiva ou ‘efeito rebanho’. Quando isso acontece, as doenças não podem se espalhar facilmente de pessoa para pessoa pois a maioria estará imune. Isso proporciona uma camada de proteção contra as doenças, mesmo para aqueles que não podem ser vacinados. O ‘efeito rebanho’ também previne surtos ao dificultar a disseminação da doença. A doença se tornará cada vez mais rara, às vezes desaparecendo completamente da comunidade”.
Em Franca, há também quem sofra com a desinformação a respeito do tema. É o caso da manicure Débora Ferreira do Amaral, 38, que alegou não querer tomar o imunizante por conta da falta de aprovação. "Elas [as vacinas] não estão aprovadas por nenhum órgão. Estão usando metodologia não conhecida, não considerada segura fazendo manobras e alterações sem cautelas e sem cuidados. Não se sabe o desfecho final, pois não foram testadas nem em animais".
Apesar de questionada sobre a aprovação da Anvisa, a manicure mantém seu posicionamento. "Pelas minhas pesquisas, não vi nenhuma aprovada. Não assisto canais abertos. Costumo assistir cientistas e 'CEO' em infectologia".
Débora ainda afirma que não é contra vacinas de forma geral, mas que não tomará contra a covid-19 por cautela. "Não sou contra a vacina, só acho que nem eles [os cientistas] sabem direto se elas têm reação. Por isso, não vou tomar. Por cautela. Quando tiver certeza, eu tomarei, mas isso lá pela metade de 2022".
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.