LINHA DE FRENTE

Sob estresse e tensão há mais de 10 meses, vacina é esperança para enfermeiras de Franca

Por N. Fradique | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Dirceu Garcia/GCN
O técnico em enfermagem Fernando Augusto Cândido, de 62 anos, foi o primeiro vacinado contra a covid em Franca
O técnico em enfermagem Fernando Augusto Cândido, de 62 anos, foi o primeiro vacinado contra a covid em Franca
Vivendo sob tensão, estresse e angústia há mais de 10 meses desde o início da pandemia, profissionais de linha de frente do combate ao coronavírus relatam alívio e esperança com a liberação da Coronavac e início da imunização da população brasileira. As enfermeiras dizem que, nesse período de combate à doença, o maior medo tem sido de uma contaminação que possa levar o vírus para dentro de suas casas. 
 
Pelo menos sete profissionais da rede pública de Franca se voluntariaram para participar da fase 3 de testes e ajudar no desenvolvimento da vacina contra a Covid. 
 
A enfermeira Bruna Giacomelli, de 34 anos, há 12 anos trabalhando no pronto-socorro de Franca, foi uma das pessoas que se colocou à disposição da medicina tomando a vacina-teste. “Eu participei da pesquisa de estudos do instituto Butantan, chamado duplo cego, aonde tanto quem toma a vacina quanto quem aplica não sabe se está sendo administrada a própria vacina ou o placebo”.
 
Bruna, que foi coordenadora da equipe do PS nos últimos 6 meses, disse que a pandemia tem sido um período extremamente exaustivo para os profissionais da saúde. “No início da pandemia foi uma mistura de vários sentimentos. Tinham profissionais muito preocupados, outros angustiados, cansados, e alguns até em pânico por atender essa demanda, com medo de levar o vírus para casa. Usamos várias estratégias para não acontecer isso. Alguns deixaram suas famílias e alugaram moradias para ficarem sozinhos e evitar a contaminação dos familiares”, disse.
 
A maior dificuldade para Bruna é quando o paciente é avisado de que precisa ser entubado. “Com o pico, foi ficando cada dia mais desesperador presenciar os agravamentos de pacientes que chegavam bem, conversando, e depois seguiam para o hospital já entubados. O momento de dar a notícia para um paciente lúcido, de que precisaria ser entubado, e ver ele se despedindo da família, com o risco de não se verem mais, era o mais tenso. E, realmente, alguns iam a óbito dias depois de internados", explica. Para ela, a vacina é a grande esperança. “Nunca esperamos algo com tanta vontade quanto a liberação das vacinas para a população. É uma luz no fim do túnel para todos nós”.
 
Maria Aparecida Leite da Silva, de 45 anos, casada, quatro filhos, técnica de enfermagem da Santa Casa, tem 15 anos de profissão. Ainda tensa, disse que no começo da pandemia foi como cavar a própria sepultura. “Quando a gente começou a trabalhar com pacientes contaminados foi como cavar uma cova pra gente entrar. Mas depois, com o passar do tempo, a gente foi se acostumando com a doença, porque, querendo ou não, não tem pra onde correr. É uma batalha todo dia, ver gente morrer, (outros) se recuperar, ficar com sequelas. Cada dia é uma esperança de vitória. Bate a insegurança, o choro. Não é só a gente, tem a família, o esposo, pai, mãe, os filhos, vizinhos e amigos. O medo de contaminar os outros e de se contaminar gera uma tensão muito grande”, disse Maria Aparecida.
 
Ela diz que a liberação das vacinas representa a melhor expectativa para toda a população, apesar de ter receio por conta do que avalia como baixa eficácia da Coronavac. “Eu ainda estou na dúvida com essa vacina porque ela não tem uma eficácia 100%, mas é uma esperança. Temos que tomar e rezar para que tudo dê certo”.
 
Adriele Silva de Oliveira, 25 anos, enfermeira da Santa Casa há um ano, passou pelo drama do vírus dentro de casa. Seu pai precisou ser entubado e ficou mais de 15 dias internado na UTI do Hospital do Coração. “A liberação da vacina é uma pontinha de esperança para que esse caos possa diminuir. A Mônica Calazans (enfermeira do Hospital das Clínicas de São Paulo que foi a primeira pessoa imunizada no Brasil) representa todos nós, da saúde, num momento muito importante e emocionante da história”.
 
Sandra Lilian de Oliveira Faria, 42 anos, técnica de enfermagem na rede pública, tem 21 anos de profissão. Casada e com filhos, disse que não foi fácil mudar a rotina para proteger a si mesma e sua família do vírus. “Foi muito difícil pra gente mudar a rotina para poder lidar com os pacientes, independente do diagnóstico. A tensão é muito grande, com o receio de ser contaminada e (infectar) as outras pessoas. Tem pessoas que não têm os cuidados que a gente tem. Passamos a nos preocupar ainda mais com a higienização. O local em que trabalhamos passou a ser higienizado todos os dias. A roupa que eu saio pra trabalhar não entra na minha casa logo após o serviço. Quando chego em casa, não toco em nada antes de passar por uma higienização pessoal”, explica. “Acredito no sistema de imunização no Brasil e tenho plena confiança de que as vacinas vão salvar vidas. Só de preencher o formulário de vacinação já fiquei emocionada, com a sensação de alívio e felicidade. Espero que todo mundo sinta isso também”.

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