Antigamente mulheres, desculpa, moças em sua maioria absoluta - eram educadas para casar e deviam observar rigorosamente cláusula pétrea e irrevogável: ser virgem e intocada. Depois da adolescência, a rotina: curso de normalista, caçar pretendente para arrumar casamento, noivar, festa de formatura e casamento. Véu, grinalda, enxoval, buquê, livro de receitas, curso de culinária, bordados. O noivo - ainda que fundamental figura - durante o processo despencava do gancho da notoriedade para ser mero detalhe, à medida em que o grande acontecimento - a cerimônia de casamento - se aproximava.
No período de caça ainda tinha certa relevância. Depois de fisgado, ninguém se importava lá muito com ele, não... Desejava-se que estivesse dentro do estereótipo BBB - nada a ver com o sentido atual da sigla – mas que significava Boa-procedência, Bons-modos, Bom-emprego. Só um B ou BB bastavam: o carinho e o amor (a vir depois) tudo venciam! O tipo inverso, o bbb, embora pouco cobiçável, não era totalmente descartável, pois que defeito masculino, naquela época, era única e exclusivamente não gostar de mulher. Por bbb entendia-se bebe-além-da-conta, bate-nela, bota-chifre-nela. Com apenas um b pegaria os últimos lugares mas ainda assim estaria no páreo. Bastava apenas acrescentar um B aos outros minúsculos, tinha sua categoria elevada. Por macho alfa, é bom que se diga, entendia-se o sujeito BBBbbb, com tudo que representava. Pleno século XXI, deixemos tais velharias para trás. Costumes, tradições e preconceitos em sua maioria mudaram, alguns desapareceram, muitos foram superados, outros apareceram. No entanto, para muitas mulheres da minha geração algum ranço ainda existe, em que pesem discurso ou grau de “empoderamento”, palavra que aliás detesto... É frequente ver - ou ler – na mídia social a discrepância entre o discurso de muitas “empoderadas” e a atitude servil e humilhante de suas atitudes no cotidiano frente à presença masculina. Longe de qualquer acusação ou ofensa, mostro a cartilha na qual muitas de nós aprendemos a ler. Num tempo em que mudanças custavam a acontecer, as determinações passavam de geração para geração. Passo a transcrever o Guia da Boa Esposa publicado pela revista Housekeeping Monthly, em maio de 1955.
“1. Tenha o jantar sempre pronto. Planeje com antecedência. Esta é uma maneira de deixá-lo saber que se importa com ele e com suas necessidades.
2. A maioria dos homens está com fome quando chega em casa, e espera por uma boa refeição. Seu prato favorito faz parte de recepção calorosa, lembre-se disso!
3. Separe 15 minutos para descansar, assim você estará revigorada quando ele chegar. Retoque a maquiagem, ponha uma fita no cabelo e pareça animada.
4. Seja amável e interessante para ele. Mesmo que seu dia tenha sido chato, o dele deve ter sido pior: uma das suas funções é animá-lo.
5. Coloque tudo em ordem. Dê uma volta pela parte principal da casa antes do seu marido chegar. Junte os livros escolares, brinquedos, papéis, e em seguida, passe pano sobre as mesas.
6. Durante os meses mais frios você deve preparar e acender a lareira para ele relaxar. Seu marido vai sentir que chegou a lugar de descanso e refúgio. Afinal, providenciando seu conforto, você terá satisfação pessoal.
7. Dedique alguns minutos para lavar as mãos e os rostos das crianças (se eles forem pequenas), pentear seus cabelos e, se necessário, trocar a roupa deles. As crianças são pequenos tesouros e ele gostaria de vê-los assim.
8. Minimize os ruídos. Quando ele chegar desligue a máquina de lavar, secadora ou vácuo. Incentive as crianças a ficarem quietas.
9. Mostre-se feliz em vê-lo. Receba-o com sorriso caloroso, mostre sinceridade e desejo em agradá-lo. Ouça-o.
10. Você pode ter uma dúzia de coisas a dizer para ele, mas sua chegada não é o momento. Deixe-o falar primeiro. Lembre-se, os temas de conversa dele são mais importantes que os seus.
11. Nunca reclame se ele chegar tarde, sair pra jantar ou ir a outros locais de entretenimento sem você. Em vez disso, tente compreender o que ele sofre com seu mundo de tensão e pressão e tem necessidade de estar em casa e relaxar.
12. Seu objetivo: certificar-se de que sua casa é lugar de paz, ordem e tranquilidade, onde seu marido pode se renovar em corpo e espírito.
13. Não o importune com queixas e problemas.
14. Não reclame se ele se atrasar para o jantar ou passar a noite fora. Veja isso como pequeno, em comparação ao que ele pode ter passado durante o dia.
15. Deixe-o confortável. Faça com que ele se incline para trás numa cadeira agradável ou se deitar no quarto. Dê uma bebida fria ou quente pronta para ele.
16. Arrume o travesseiro e se ofereça para tirar os sapatos dele. Fale em voz baixa, suave e agradável.
17. Não lhe faça perguntas sobre suas ações ou que questionem sua integridade. Lembre-se, ele é o dono da casa e, como tal, irá sempre exercer sua vontade com imparcialidade e veracidade. Você não tem o direito de questioná-lo.
18. Uma boa esposa sabe sempre e observa o seu lugar.”
Triste, não? Mas era assim. Acredite se quiser.
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