FRANCA 196 ANOS - SETE DESAFIOS

Problema histórico: enchentes são resultado de falta de planejamento

Por Higor Goulart | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Arquivo/GCN
Enchente em janeiro deste ano, na avenida Alonso y Alonso, próximo ao Uni-Facef
Enchente em janeiro deste ano, na avenida Alonso y Alonso, próximo ao Uni-Facef

O verão está chegando e com ele as fortes chuvas se aproximam. Por isso, um dos problemas históricos da cidade volta a atormentar os francanos. Principalmente na região dos córregos Cubatão e Bagres - nas avenidas Alonso y Alonso e Hélio Palermo, respectivamente -, os comerciantes, estudantes e motoristas sofrem com os alagamentos que se tornaram frequentes nesta época.

O pior é que o problema existe já há anos e nenhum prefeito foi capaz de encontrar uma solução. Alargamentos, manutenções e até bolsões já foram construídos, mas nada foi suficiente para conter as enchentes.

Uma explicação para o problema é a forma como os córregos foram canalizados e avenidas, construídas. De acordo com o urbanista e arquiteto Mauro Ferreira, tudo começou nos anos 1960.

“Esse é um problema decorrente do modelo de urbanização da cidade adotado desde os anos 1960, que canalizou córregos e construiu avenidas sem deixar as áreas livres para as cheias naturais dos cursos d’água, que não será facilmente resolvido, é complexo e requer planejamento, projetos de longo prazo e remodelação de atitudes”, afirmou.

Conforme conta Valéria Marson, arquiteta e secretária de Planejamento Urbano no governo Sidnei Rocha, esse modelo de urbanização da época foi criado seguindo a legislação vigente na década, que não exigia áreas de alagamento.

“Hoje a lei exige 30 metros nas laterais. Fazendo com que, quando temos chuvas mais fortes e o córrego atinge sua capacidade máxima, essas áreas recebem as águas, que não chegariam até o sistema viário.” Mas, como citado por Mauro, não existe espaço livre para as obras nas laterais.

Outro problema para ambos é a forma como as residências francanas foram construídas, não respeitando o verde e gerando uma impermeabilização do solo.

“É importante atentar que, com os novos loteamentos, além dos antigos, várias áreas foram asfaltadas e casas construídas, ocorrendo uma impermeabilização nestas áreas que antigamente estavam apenas na terra – que contava com uma permeabilidade natural das águas de chuva, sendo levadas para o lençol freático”, observa Valéria.

Também ex-secretário de Planejamento, durante o governo de Gilmar Dominici, Mauro segue a mesma linha. “Basta ver a quantidade de áreas que eram permeáveis no Poliesportivo 30 anos atrás, e hoje. É cada vez menor o verde, cada vez mais pavimentado e menos ‘poroso’. Se o poder público faz isso, o que esperar que o setor privado faça?”, questionou.

Dado o pequeno espaço para alargamentos e o “sumiço” do solo permeável, Mauro sugere lagoas de contenção nas regiões possíveis. “Seria necessário drenar a lagoa do Castelinho periodicamente e fazer mais uma ou duas lagoas na região da AABB e acima, para controlar as cheias. No caso do Cubatão e Bagres, há necessidade de substituir algumas pontes que estrangulam a passagem da água e fazem ela saltar para o leito da avenida.”

Já Valéria reforça necessidade de tornar o solo novamente permeável, sugerindo mudanças no Código de Obras. “Em cada edificação nova, o proprietário deixaria um percentual de área de drenagem no seu próprio terreno, ou seja, um pequeno jardim ou a utilização de um revestimento no piso nas áreas externas que sejam drenantes.” Além disso, a arquiteta propõe também a ideia de áreas de inundação.

Apesar de todas essas sugestões de ambos os ex-secretários, Mauro enxerga que não é possível fazer isso com os recursos orçamentários disponíveis – montante para 2021 é estimado em R$ 948 milhões.

“Não há recursos orçamentários suficientes para a substituição de todas as pontes. Tem que buscar fora e para isso é necessário, como disse, planejamento e projetos executivos. Além disso, a ênfase sempre tem sido o automóvel, não a enchente ou o pedestre: fazem viadutos, mas não resolvem problemas estruturais anteriores. Falta continuidade aos planos da Prefeitura, os governos que entram não olham o que foi planejado, não dão seguimento aos projetos. Essa descontinuidade é uma das raízes do problema atual”, finalizou Mauro.

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