O mundo pode mudar num pix, mas não muda por inteiro. Mudanças seguem lógicas diferentes porque enraizadas em diferentes matrizes e padrões que as demandam; quanto mais profundo nas mentalidades, menos aceitável será a mudança nos costumes.
Nas aulas de História aprendemos que as civilizações antigas usaram o trabalho escravo. Egípcios, gregos, romanos e qualquer tribo que vencesse outra em batalha praticava o comercio do gênero humano cuja força de trabalho construiu impérios que se sucederam ao longo do tempo. A prática de dominar e explorar a força de trabalho é intrínseca aos processos históricos e continuará assim nos modelos que se alternam e evoluem segundo as tecnologias e a ganância, mas também segundo a reação do explorado enquanto categoria, classe, povo ou nação.
Ouvimos falar de racismo estrutural e talvez aceitemos a expressão sem elementos que apoiem uma resposta ao “ por que estrutural?”, voltemos ao século 15 para rapidamente pensarmos o início da era moderna.
A modernidade se pauta em relações de produção e trabalho bem diferentes do período feudal e mais ainda da antiguidade. A evolução das ciências, especialmente a química e a física, proporcionou o uso de máquinas para acelerar a produção de bens duráveis e de consumo imediato. Cada vez mais essa produção industrial foi estimulada para gerar demanda nas populações e, consequentemente, mais consumo e capital nos mercados ampliados: pessoas com dinheiro para comprar o produzido e o excedente, a sobra, o produzido além da expectativa de consumo. Ora, pessoas escravizadas não podem comprar porque não são remuneradas, portanto, a escravidão na era moderna é uma contradição dos interesses capitalistas em expansão; uma triste e duradoura contradição que atravancou a evolução do mundo, mas não de todo mundo.
Poucos países fortaleceram suas economias escravizando homens e mulheres enquanto o resto do mundo ficava paralisada no tempo, vítima da opressão racista e genocida. Os movimentos abolicionistas só ganharam força quando a conclusão óbvia não podia ser mais evitada: se todos receberem salários, todos ganham. Mas como garantir aos donos do poder que continuassem ganhando mais que a maioria recentemente incluída na dinâmica da produção? Ainda hoje vivemos as consequências da resposta posta em prática: segregando e dosando essa inclusão - desde 1.888, quando as forças oligárquicas que oprimiam corpos e mentes afrouxaram a rigidez em troca de mudanças e mais ganhos, negros e pardos puderam comprar “feito branco”.
Portanto, a lógica perversa do racismo é estrutural porque suas raízes estão fincadas no sistema capitalista e dele depende.
O leitor apressado poderia concluir que minha digressão simplória faz apologia ao comunismo, sistema que se opõe (?) ao modo de produção capitalista, mas seria uma conclusão também simplista. O capitalismo está longe de ver suas contradições superadas, apesar das enormes rachaduras e abismos entre a minoria detentora do capital e a maioria alienada de sua força de produção; as ciências continuarão alimentando as fábricas e gerando demandas de consumo nos mercados. A questão estrutural em pauta hoje é a mesma de 1.888: a mudança das mentalidades não é acompanhada por uma transformação efetiva das engrenagens do sistema produtivo que continua produzindo desigualdades. Dentro dessa lógica, a liberdade de consumir com dignidade é quesito a ser conquistado, pois implica em distribuição de renda e oportunidades iguais.
Sigamos firmes no propósito de fazer da luta contra o racismo estrutural nossa batalha, pois é uma luta de pretos, brancos, amarelos, vermelhos e... Se o mundo pode mudar num pix, estamos presentes para contribuir com a mudança.
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