A leveza de seus passos, o talhe esbelto, os traços finos e simétricos de seu rosto, o penteado esmerado do cabelo levaram Celso a interessar-se por ela, assim que a viu! Aguardou o dia seguinte para vê-la passar pela praça principal, em direção ao colégio de freiras. Aproximou-se e o seu coração tremeu ao ver o brilho dos olhos dela e ouvir sua voz suave. Pediu-a em namoro e marcou o dia para falar com seu pai. Maria, para ir ao cinema, assistir ao famoso filme “E o vento levou”, levava seu afilhado de 10 anos. Não conversavam a sós. Paciente, Celso concordava com tudo. Estava apaixonado. Tinha feito sua escolha.
O pai era um imigrante espanhol, próspero comerciante de secos e molhados, muito rigoroso e exigiu que se marcasse o casamento para data próxima. Maria assentiu com a decisão deles e pôs-se a preparar o enxoval. Sua opinião não contava e estava conformada em se casar, único caminho visualizado pelas moças de sua época.
Celso era jovem, garboso, de modos finos, fluente e delicado ao falar. Era funcionário de uma multinacional que fabricava enceradeiras, produto em alta no mercado, sonho das donas de casa, nos anos 50. Viajava pelo interior de São Paulo, fazia boas vendas e vindo a Franca, conheceu Maria e decidiu sua vida amorosa!
Preferiu a cidade de Santos para morar e construiu uma bela casa, assobradada, na Ponta da praia, em frente ao mar. Após um íntimo, mas encantador casamento, viajaram em carro próprio para a nova casa. A lua de mel transcorria ao melodioso som da ondas quebrando na praia! Da janela de seu quarto, admirava o brilho da lua e das estrelas, em contraste com a escuridão do mar! Tudo para ela era desconhecido, um carrossel de emoções a dominou!
Maria quis levar seus pais para rever o mesmo mar que os trouxera, em um navio de imigrantes, no começo do século passado. E assim o fez e, várias vezes, veio visitar suas amadas irmãs e sobrinhos. Vinha deslumbrante com seus trajes finos, tailleur, saias plissadas, blusas com golas de renda, broches e o colo ornado com um colar de pérolas de duas voltas!
Um desentendimento entre cunhados afastou –a da família. Apesar de ter dois filhos, a solidão a rondava. Danos emocionais profundos começavam a ocorrer. Fazia longas caminhadas pela praia, sentindo o frescor da brisa amena do mar, em suas faces e cabelos, pensando em sua vida, numa cidade extremamente bela, mas distante de sua família. Aquele casamento teria sido o melhor para ela? Não tivera escolha, fora escolhida.
A tristeza a acompanhou pelo resto de seus anos até que se foi. Sua alma seguiu as ondas do mar para plagas distantes onde poderia ser ela mesma.
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