A história de W

Por Lúcia Brigagão | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Foi no século passado. Faz mais de cinquenta anos e as lembranças permanecem claras, límpidas e, infelizmente, muito vivas. Quisera lembrar-me dela - de nome W - apenas sentada na mureta de entrada da escola primária onde éramos substitutas efetivas. Morena de olhar vivo, cabelos soltos, sorriso aberto, dentes branquinhos, lábios cheios e pintados de vermelho. Ela era bonita, bem bonita. Olhos grandes, que semicerravam quando, ao escanear a rua em frente ao prédio da escola, via a frente de algum carro preto dobrando a esquina, virando e vindo em nossa direção, nós que esperávamos o sinal para entrada dos alunos. Sua respiração ficava suspensa, seus ombros se encolhiam, as mãos apoiadas na mureta embranqueciam no esforço de apoiar o corpo e contê-lo para não descer correndo os degraus e ir conversar com M, como faria sempre que ele passasse por ali, apenas para vê-la, acreditava ela. M e W viviam romance clandestino. Ela, estudante; ele, o rapaz bonito que defendia as cores do time de basquete da cidade. Diziam, ele estava noivo de alguém de sua cidade. Diziam, W se encontrava com ele que, assediado, venerado, exaltado, cobiçado, embora comprometido, se relacionava com muitas garotas românticas da cidade que sonhavam com o galã.  E, diziam, dava à W o privilégio de sua preferência sobre todas as outras tietes.

A cidade fervilhava com os comentários, avaliações, fofocas, intrigas e diz-que-diz. W e M, embora não devessem qualquer explicação ou dinheiro, nem ao bispo, nem ao pastor, nem ao gerente do banco, eram assunto recorrente. A vida alheia e as avaliações morais sobre a conduta dos moradores – temporários ou permanentes - fascinavam os filhos da terra. O casal não se exibia escancaradamente. Sentavam-se juntos no cinema, depois que as luzes se apagavam. Vez por outra dançaram como par nos clubes da cidade, jamais entraram num salão de festas sozinhos. Não fosse pelos olhares, que não se desgrudavam, eram discretos nas atitudes.

Estávamos no último ano de faculdade. Nos primeiros meses de aula ela começou a demonstrar inquietude e aflição. Silenciosa, discreta, quieta, calada ainda, mas desassossegada. Na escola onde trabalhávamos ela se comportava da mesma forma: de repente saía da sala onde nos concentrávamos. Não respondia, se nos dirigíamos a ela. Mostrava-se distraída, pensamento longe.  Tinha o olhar distante, por vezes até esgazeado.  O carro preto parou de passar pela escola, mas não ousávamos comentar com ela que,  notadamente, sofria com alguma coisa. E só podia ser de amor.

Manhã de junho, dia 7, a notícia se espalhou feito fogo sobre pólvora. W morrera durante a madrugada. Suicídio. Havia tomado veneno de rato. Fora levada para o necrotério municipal, ainda vestida com a camisola que usara para se deitar: detalhe que não fazia sentido, mesmo naquele momento sinistro. Ela não era de muitos relacionamentos, mas tinha amigos. E fomos todos para lá, sem palavras, estarrecidos, olhos arregalados, coração disparado, que destruição - ou a morte -  principalmente provocada, não faz sentido no raciocínio jovem. O enterro seria na cidade dela, naquele fim de tarde, céu vermelho, nuvens carregadas do frio de inverno. M não foi.

O tempo passou, M casou com a antiga noiva, não sei se foi feliz. Meio século escorrido e a lembrança sinistra daquele dia ainda está viva.  Meio século passado, população de escolaridade satisfatoriamente alta, a cidade continua provinciana, com parte da população invejosa do sucesso, brilhantismo, notoriedade e brilho alcançados por outros, se deliciando e se fartando com os restos dos repastos alheios, feito lobos e fuinhas famintos e ávidos por escombros. Quem conheceu W se lembra com saudade, carinho e admiração por ela, mesmo tanto tempo passado e não a desculpa pelo gesto, que avalia impensado: fosse qual fosse o motivo ou desejo de morrer, alguma outra saída haveria. Daquela geração, quem conheceu M, dificilmente fala nele. Tornou-se assunto sujo, sórdido, asqueroso, nojento e proibido. Tristes vidas. Grande amor, mesmo que unilateral. 

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