Nos EUA, o serviço de self storage, ou simplesmente storage, consiste na locação de espaços privativos para armazenar pertences. O cliente pode escolher o tamanho que mais se adequar à sua demanda. O contrato é feito sem burocracia: em poucos minutos a pessoa já pode guardar o que quiser- de um lote de brinquedos a uma mobília doméstica. Acontece que a vida é imprevisível. Por alguma razão o locador desaparece; o tempo que ele tem para resgatar seus bens caduca; então o que está lá dentro vai a leilão. Quem dá mais pode entrar num dos boxes dos imensos galpões e ficar com tudo o que encontrar. Ninguém sabe o que será. É um risco.
Pelo que nos conta a brasileira Adeline, em vídeos do Youtube cada vez mais curtidos, vale a pena. Com 40 dólares ela levou para casa sofá de couro, escadinha doméstica, cúpulas de abajur, panelas de cerâmica, aspirador, bicicleta, computador , duas moedas chinesas antigas e um belíssimo conjunto de adagas do Afeganistão que todo museu adoraria exibir. Mas há box que só tem roupa mofada, caixas de disquetes, objetos indecifráveis. Há que se ter sorte...
Adeline parece que tem não apenas sorte, mas também um gosto peculiar nessa aventura. Ela comunica sentimentos verdadeiros quando começa a abrir caixas, malas, sacos e sacolas. Eu, por exemplo, me senti emocionada com o conteúdo de baú grande onde se encontrava um jogo completo de chá e sobremesa, finíssima porcelana do Japão. Cada peça estava embalada em grandes guardanapos de linho para evitar atrito e esse detalhe me levou a imaginar uma mulher que tivesse acondicionado com todo cuidado xícaras, pratos, leiteira, cremeira e açucareiro com a intenção de recuperá-los. O que teria lhe acontecido?
Além de storage, Adeline faz dumpster (da expressão dumpster diving ,mergulhando na lixeira), ou seja, vasculha o lixo das lojas com o objetivo de recuperar algo útil. Tal prática visa às caçambas dos imensos shoppings e outlets do país dos excessos consumistas. Agindo à noite, com o marido e a filha adolescente filmando tudo para mostrar aos seguidores cada vez mais fiéis, a paranaense dá um show. É impactante vê-la se mover naqueles lugares ermos, às vezes debaixo de chuva, nesta última semana enfrentado o frio que começa a apertar. Se as caçambas estão trancadas, ela não pode mexer. Caso contrário, lança-se à ação. Carrega consigo um tipo de bengala comprida com gancho na ponta para pescar as mercadorias; mas às vezes tem de entrar dentro e já se machucou. É mesmo inacreditável o que as lojas rejeitam : desde notebook até relógio Ralph Lauren. Basta um leve arranhão na embalagem para o consumidor desqualificar o objeto e a loja jogar fora.
Não sei ainda como chamam ao lixo doméstico por lá, que como o anterior pode ser levado por qualquer um antes que passe a coleta pública, altas horas da noite. Mas o que posso dizer é que fiquei perplexa com o que os norte-americanos de classe média abandonam na grama de seus condomínios: mobílias completas; berços lindos; tênis de marca usados poucas vezes; sapatos femininos idem; roupas que ainda trazem a etiqueta; tapetes; cortinas;malas perfeitas; utilitários de cozinha ... Fica-se com a impressão de que lá um dia a família resolve jogar tudo o que tem fora para dar lugar ao novo. É um arrematado exemplo da sociedade de consumo, do império do descartável , da desigualdade social.
A reação dos que acompanham a saga da brasileira vai dos que a criticam por ter deixado o Brasil para catar o lixo dos americanos, aos que a aplaudem pela coragem que tem e a solidariedade que demonstra. Eu me identifico com o segundo grupo. Adeline não retém para si tudo o que acha; vende na sua garage sale parte dos objetos e doa a maioria para a comunidade latina que passa dificuldades por lá. É uma valente que em busca de melhores oportunidades faxina casas durante o dia e à noite recolhe o que os outros desprezam. Descobriu um nicho para ampliar seus ganhos e agora há muitos imigrantes seguindo seu exemplo.
O que me encanta é vê-la sempre ansiosa diante das embalagens a serem abertas. Dotada de facilidade de comunicação, faz suspense diante dos objetos que vai encontrando, mesmo que sejam eles bonequinhos quebrados ou caixas com coletores para cocô de cachorro. Sua energia me tocou tanto que me lembrei dia desses de um sucesso antigo, “Ballade pour Adelline”. Apesar do título francês, a balada enquanto gênero musical nasceu em Cuba como modernização do bolero nos anos 50 e continua fazendo sucesso em toda a América Latina, cujos povos, maioria, olham para os EUA com uma admiração que talvez precisasse ser revista.
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