Para onde foi o tempo que estava aqui?

Por Edi Aparecido Trindade | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

As reflexões e especulações sobre o tempo são um hábito corriqueiro entre nós. Na Filosofia, na Física ou em uma conversa informal, é um tema que sempre se faz presente. Implacável na sua marcha e na sua aparente "indiferença" com tudo e com todos, o tempo fascina, intriga e muitas vezes amedronta. Entre outras coisas, revela uma impotência humana sobre um fenômeno natural que em boa medida define parte substancial das decisões que são tomadas por cada indivíduo ao longo da vida.

Uma referência comum ao tempo nos dias atuais tem sido a de que ele passa cada vez mais rápido. A sensação de que o tempo não é mais suficiente para dar conta dos compromissos é generalizada e provoca angústias, impacta em aspectos da saúde física e mental e parece não ter solução. Não é incomum ouvir que o dia precisaria ter pelo menos 36 horas.

Naturalmente que falar sobre o tempo em 2020 merece uma ressalva. Nada neste ano pode ser comparado com os tempos que chamamos de "normais". O isolamento social em boa parte deste período "mudou" a relação com o tempo e para muitos houve uma inversão de sensações: o tempo parecia estar em "marcha lenta" e os dias, semanas e meses tornaram-se "mais longos". Portanto, as ponderações aqui desconsideram o período atípico deste ano.

É inegável que o mundo contemporâneo transformou por completo nossa forma de viver. Só em termos de campo/cidade, temos atualmente mais da metade da população mundial vivendo em centros urbanos, alguns deles com milhões de pessoas, sendo que uma boa parte vive em condições muito precárias em termos de segurança, moradia, transporte, saneamento etc.

Para alguns por opção, e para muitos exatamente pela falta de opção, percorrer a distância entre a moradia e o local de trabalho já consome um tempo considerável do dia. Além disso, a regra básica do trabalho entre o nascer e o por do sol já não é uma realidade para muitas pessoas. Nosso mundo demanda atividades 24 horas por dia e, com isso, inúmeras tarefas são executadas de forma ininterrupta, fato que, indiscutivelmente, altera a percepção do tempo.

Por outro lado, nossa sociedade criou, e continua criando, uma infinidade de atividades e objetos destinados a preencher cada vez mais o tempo das pessoas. Atividades culturais, esportivas, de lazer e outros são ofertados em escala crescente. Objetos criados por uma inovação tecnológica incessante surgem cotidianamente no mercado com a promessa de novas sensações.

Soma-se a isso o fato de que cada vez mais as possibilidades de inserção social parecem estar se estreitando. Desta maneira, "preparar-se" para um mercado cada vez mais competitivo é um processo cujo início é cada vez mais antecipado. Assim, começamos a ver crianças sem tempo para viver a infância, jovens sem tempo para amadurecer e adultos sem tempo para se relacionar.

Mas na discussão sobre o tempo, há um fator importante para ser considerado. Vivemos um tempo onde o consumismo dominou completamente o imaginário social e transformou-se em um ritual de cuja prática parece depender a existência humana. A incrível máquina de produzir mercadorias em que se transformou nossa estrutura econômica trouxe consigo o desafio de manter as pessoas em tempo integral dedicadas ao consumo.

Neste sentido, a internet parece ser um "bilhete premiado", pois colocou todas as prateleiras do mundo ao alcance de milhões de pessoas com apenas um clique. Ressalvadas as restrições impostas pelo poder aquisitivo, a possibilidade de consumir agora é disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.

Mas o aspecto mais interessante sobre o tempo está relacionado ao fato de que o consumo nos tira do tempo presente e nos projeta, o tempo todo, a um tempo no futuro, de tal forma que não temos necessidade de parar de consumir. E essa projeção mágica é executada de forma muito convincente pela mídia.

Nessa lógica, o tempo não segue seu curso natural pois mal se apagaram as luzes e fogos de artifício do ano novo, o Rei Momo já está convidando para o carnaval. A quarta-feira de cinzas já não deixa uma sensação de vazio pois os atrativos da páscoa já estão disponíveis nos mercados e nas peças publicitárias. E assim seguimos com as mais diversas datas como dia das mães, dos namorados, dos pais, entre outras. Nesse ritmo é possível que em breve Papai Noel seja "convocado" para entregar os presentes no dia das crianças e assim já potencializa a campanha para o consumo de final de ano.

O tempo presente "deixou de existir" na lógica do consumo e da mídia. O próximo evento não é regido por um fenômeno natural chamado de tempo, para o qual as pessoas se preparavam com naturalidade. O cotidiano dominado pelo consumo exige que estejamos sempre no futuro, comprando para o dia que não mais virá, pois ele é hoje. E assim, boa parte do tempo que estava aqui foi expropriado pelo consumo.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários