“Um gosto de amora/ Comida com sol. A vida/ chamava-se agora.”
Esses três versos aos quais o paulistano Guilherme de Almeida deu o nome de “Infância” formam um haicai, gênero literário nascido no Japão. No Brasil, poucos se dedicaram a ele. Somos muito extrovertidos, verborrágicos, desligados das estações. O haicai pede concisão, clareza, vínculo com a natureza, além de metáforas bem construídas. A amora que é delicada e doce lembra ao poeta o puro apetite pela vida demonstrado por uma criança. O inverno olha a primavera.
Minha nora Milena, que ama as plantas tanto quando os animais, cultiva há cerca de dois anos uma amoreira, que este ano se encheu de frutinhos. João, meu neto, parceiro da mãe nos gostos, me tomou dia desses pela mão para ver o pé, mas antes me pediu por favor que não fizesse com ele aquela brincadeira boba,você-gosta-de-amora-vou-contar-pro-seu-pai-que-você-namora. Assim combinado, dedinhos mínimos cruzados, fomos ver as frutas que iam passando do vermelho para o negro, fazendo jus à nomenclatura botânica- morus nigra.
Enquanto catávamos amoras maduras, mostrei para ele uma delas e expliquei que dentro da barriga da mãe todo humano, no início da vida, tipo assim três dias depois do encontro das células masculina e feminina, tem aquele formato. Por isso o pedacinho do que será dali a nove meses um ser completo passou a ser chamado de “mórula”. Este vocábulo é diminutivo de “morus”, que na língua latina é a amora que os franceses chama “mûre”, os italianos e espanhóis “mora”. “Uma amorinha?”- ele perguntou. “Isso”, respondi.
E mudamos de assunto, porque então ele me falou das tortas de amora da Vovó Donalda, colocadas na janela para esfriar e sempre roubadas pelos Irmãos Metralha. Foi quando tive ideia de fazer uma geleia e ele topou.
Enquanto a preparávamos, medindo açúcar na mesma quantidade de frutas, mais meio limão espremido, um cheiro delicioso inundou a cozinha e eu, na brincadeira que faço com ele para ampliar seu vocabulário, lhe pedi um sinônimo de cheiro. Acostumado a fazer palavras cruzadas, demorou só uns minutinhos para responder “aroma.” Para minha surpresa, saiu de perto do fogão repetindo a-ro-ma/a-mo-ra, deixando no ar o som de sua voz infantil e apenas uma intuição sobre o que fosse um palíndromo.
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