Medo, descaso e abandono. Esses são os sentimentos que cercam os moradores dos prédios da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) no City Petrópolis. Isso porquê, há anos, os donos dos apartamentos do conjunto habitacional sofrem com a precária situação do esgoto. Mas, agora, a questão piorou e um dos blocos passou a correr risco de desabamento.
A situação extrema se deu por conta da falta de manutenção, que foi praticamente zero desde 1997, quando os prédios foram entregues pela companhia. Mas passou a ser evidente há cinco meses, assim que os dutos ficaram completamente entupidos e todo o esgoto ficou sem ter para onde ir.
Logo, com a quantidade de dejetos e água acumulada, as encanações estouraram, infiltrando todo o solo. Com isso, segundo relatório da Defesa Civil, assinado pelo engenheiro Marco Matias Costa, “a compactação do solo ficou enfraquecida comprometendo o piso externo e interno dos apartamentos do térreo e, como consequência, este poderá implodir a qualquer momento, colocando os habitantes que transitem pelo local em risco”.
A vistoria foi realizada há quase uma semana, no dia 23 de outubro. Desde então, por decisão do técnico, todo o bloco 2A, parte mais comprometida e que corre grande risco de desmoronamento, foi interditado, mas, ainda assim, tem circulação das 16 famílias que vivem no local, já que as mesmas não têm para onde ir. O pior é que além deste bloco, caso ele caia, os demais também serão levados, colocando em risco quase 70 apartamentos.
Sem saber o que fazer por não ter um destino, alguns moradores foram até a Secretaria de Ação Social, buscar uma solução. A resposta, no entanto, não foi a que esperavam, segundo conta Alex Sandro Dias, que mora com sua mulher e filha há mais de dez anos em um apartamento do bloco.
“Fomos na assistência social da Prefeitura e nos disseram que não tinham condições de pagar 16 aluguéis para desocuparmos tudo.” A sugestão, então, de quem estava presente no órgão, foi que os moradores procurassem parentes que pudessem abrigá-los até resolver a situação.
O conselho não foi muito bem recebido, já que poucos moradores têm parentes que podem abrigar alguém neste período de pandemia. “Não é todo mundo que tem um parente que tem condição de abrigar. Agora tem família que tem quatro ou até seis pessoas que moram no apartamento. A maioria não tem condições. Um ou dois conseguem ir para família.”
Desesperados, os moradores que tomaram frente, como Alex, foram atrás de um orçamento para consertar as tubulações. Inicialmente, o valor ficaria em torno de R$ 18 mil, mas quase dobrou, indo para R$ 30 mil devido ao agravamento da situação. “Nos sugeriram pegar todos os moradores e ficaria uma quantia de R$ 300 para cada um”, contou Alex.
Mas, apesar de um valor considerado pequeno para muitos, nem todos tiveram condições, já que a pandemia também trouxe um grande desemprego para os moradores. Com isso, segundo a moradora Gislene Rogéria dos Santos, que vive no local há cinco anos, muitos preferem não acreditar no risco de desabamento. “Um ali vira e fala que não tem nada a ver. O outro pega e fala que não vai ajudar. Aí vamos dar R$ 300. Isso é o preço que pagamos para morar por aluguel. Aí vamos pagar a prestação e mais esse valor para poder arrumar?”, questionou Gislene.
A mulher ainda conta que, além de um cheiro insuportável, a situação aumentou o número de ratos nas residências e trouxe o medo de adquirir alguma doença. “No meu prédio tem até ratazana. Você não pode deixar a porta aberta, por que quem aguenta?”.
Sem qualquer solução e com o risco de desabamento aumentando a cada dia, os moradores temem pelo pior e fizeram até protesto nesta última quarta-feira, 28, fechando uma avenida, mas, mesmo assim, não recebendo muita atenção durante o movimento.
“Ontem fomos lá, fechamos a rua, colamos cartaz, mas quem respeitou? Um motoqueiro mostrou o dedo para nós e tinha um monte de criança. Acho que o povo deveria ter um pouco mais de consciência de vir ajudar a gente. As pessoas e autoridades têm condição”, afirmou Gislene.
Sem ajuda, os moradores quase não conseguem dormir, com medo do pior. “A gente meio que não dorme. É igual os moradores falam: vamos dormir de dia e, de noite, a gente fica acordado, para cuidarmos uns dos outros. O único bem que nós temos... É isso que temos para morar, se não para onde vamos?”, disse a mulher.
A mesma situação é relatada por Alex, que se assusta até quando um caminhão passa próximo ao bloco. “Não estamos dormindo. Passa um caminhão e parece que balança tudo. Passa um carro de som e treme tudo também. E sentimos isso de dentro da casa.”
Apesar do medo e sensação de abandono que rondam a cabeça de cada um dos residentes, eles se alimentam da esperança de que um dia alguém tomará uma atitude. “Tenho uma sensação de medo, abandono, descaso... E, hoje, infelizmente, estão mais preocupados com as campanhas eleitorais do que com o povo”, finalizou Alex.
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