De Protea a Proteus

Por Sônia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

A moda me interessa como fenômeno estético. Já me perdi dentro de alguns museus observando o figurino de nossos antepassados. Através deles percebemos aspectos que escapam do transitório e avançam para significados mais duradouros e até metafóricos. Chanel, ao criar vestidos menos colados ao corpo e adaptar a calça masculina à silhueta feminina, libertou as mulheres dos corpetes que tolhiam os movimentos, apostando no conforto e na autonomia.

Por gostar do assunto, costumo casualmente ler a respeito. Foi assim que no domingo passado, ao folhear o Estadão impresso, do qual estava saudosa porque minha assinatura é virtual, encontrei artigo de Alice Ferraz sobre a nova coleção X, da estilista Paula Raia, que celebra seus dez anos de existência num mercado periclitante.

A marca homônima da paulista tem no seu DNA o conceito de valorização do feminino. “ Para essa edição comemorativa, busquei certo frescor de recomeço; o exercício de uma linguagem nova, mais livre, solar, descomplicada.” Com esse espírito, escolheu como um de seus motivos a protea, flor de beleza exótica que estampa muitas peças e da qual eu nunca tinha ouvido falar. Sou curiosa, fui pesquisar a respeito de mais uma espécie do reino que me inspira.

A protea foge por completo da associação que fazemos de flor com delicadeza e fragilidade. Em tamanho, só uma delas equivale a um buquê. São enormes, de pétalas rústicas, cada espécie de uma cor. Duram semanas mergulhadas em água. Fenecem devagar e ao fazê-lo mudam de cor. Desidratadas formam arranjos majestosos. São fortes, resistentes e belas. Impressionam.

Descobri que a protea é considerada a mais importante das flores, quando se leva em conta a sua idade: está no planeta há mais de 100 milhões de anos, de que são prova fósseis encontrados no século XVIII e submetidos há duas décadas a exame de carbono. O leitor já pensou por quantas adversidades essas plantas passaram até chegar aqui?

O Brasil importou sementes de vários tipos de proteas, mas nem todas se adaptaram às mudanças climáticas e de solo. Uma das poucas produtoras é a Fazenda Alpes, que fica em Munhoz (MG). Suas proteas são comercializadas para todo o Brasil pela Cooperflora. Flores rudes, as proteas não ficam em estufas mas sim em campo aberto, já que precisam de sol pleno para seu desenvolvimento que é lento. Levam oito meses para enraizar, e só depois de três anos florescem.

Onde irrompeu primeiro essa beleza bruta? Na África, berço dos humanos; e só foi classificada em 1735, quando a levaram para a Europa. O botânico Lineu, “um poeta que por acaso se tornou naturalista” , segundo o dramaturgo Strindberg, deu-lhe o nome de Protea, impressionado com a resistência , o aspecto imponente e sobretudo a mudança das cores ao secar.

Para quem não sabe, Proteus era o deus grego dos mares, que conseguia se transformar naquilo que desejava ser. Na Odisseia, quando Menelau se aproxima, Proteus vai mudando forma e cor na tentativa de escapar. É pois um mito do tipo camaleão, que se metamorfoseia para sobreviver. Um exercício que humanos precisam muitas vezes fazer quando são confrontados com os perigos do viver. Quer dizer, a toda hora.

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