Realidade

Por Lúcia Brigagão | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

Era cedo, ainda. Minha amiga não havia saído da cama, nem sabia direito se sonhava ou havia despertado, mas as batidas na porta eram fortes, achou melhor atender mesmo de camisola, sem escovar dentes ou pentear os cabelos. Impacientemente, as batidas se repetiram por duas vezes. A casa era pequena, e lhe pareceu longo o caminho a percorrer do minúsculo quarto à porta da rua. Talvez fosse medo, que aquelas paragens do nordeste onde se encontrava eram tradicionalmente cenário e enredo de desmandos, violência, abusos e truculência. Entreabriu a porta e voz forte, carregada de sotaque, nem bom-dia lhe desejou e já foi perguntando quantos eleitores tinha ali naquela casa. Apenas eu, ela respondeu. E não voto aqui, sou de São Paulo. O cara resmungou alguma coisa - ela acha que foi palavrão - tirou o pé do portal, nem se despediu e foi embora. Ela pode fechar a porta mas continuou olhando pela fresta da janela a movimentação da rua. Ele foi à casa ao lado, onde moravam casal, três filhas – duas delas maiores de dezoito anos, eleitoras, uma terceira que completaria a idade dali alguns dias, marido e dois filhos machos. E repetiu a pergunta: quantos eleitores na casa? Eu, meu marido, duas filhas e dois filhos. Ele conferiu suas anotações e esbravejou: aqui diz que tem mais um, disse ameaçador. Tem sim, mas ela é de menor, não vota ainda. Aqui diz que ela vai completar a idade dentro de dias. É verdade, confirmou a mãe. Então manda ela preparar os papéis rapidinho. Disse isso, pegou folha de sulfite do embornal, escreveu o número sete – número de leitores, já contando com a menor - com caneta hidrográfica, ponta grossa, passou cola e pendurou na porta da casa. E avisou: “Vou passar por todas as casas daqui. Vou somar quantos eleitores tem aqui no povoado. Vou contar casa por casa e anotar o total. É pra votar no coronel Zé de Tal, para o senado, “ouvice?”. Se o total de votos não bater com o de eleitores, o povoado ... vai ter problema!” E foi embora rangendo os dentes. Não é exagero, nem invenção. E é assim que os coronéis do nordeste se perpetuam no poder. É assim que os Barbalho, os Sarney, os Gomes ganham eleições e elegem políticos que nenhum benefício ou progresso trazem ao povo.

Aqui no sul, talvez seja ligeiramente diferente. Não contabilizam, nem marcam as portas da casa mas pastores e pastoras, religiosos em geral, chefes de agremiações ou partidos políticos determinariam que seus fiéis – ou membros de sindicatos - votassem nesse ou naquele candidato. Versão sulista do voto de cabresto nordestino.

A escolha de nossos representantes – municipais, estaduais ou federais – não é totalmente livre aqui no Brasil. Sofremos assédio, importunação, chateação e somos alvos de mentiras contadas pelos candidatos que enrubesceriam qualquer membro da Cosa Nostra italiana. Promessas e mais promessas. Essa próxima eleição para prefeito e vereadores na cidade, por exemplo, já é cenário antológico de barbaridades... O candidato X nem ficou vermelho, percebi, mas comentou que saiu em campanha pela cidade e levava nas mangas as necessidades de cada bairro. No bairro tal, queriam segurança? Antes que solicitassem, afirmou no discurso que preparava esquema que defenderia todos os cidadãos dali. Foi um ó geral de surpresa... É calçamento naquele outro? Antes do pedido formal, a antecipação do benefício e realização de desejos. E, dizem, estão sendo gastos rios de dinheiro.

Em 1933 Noel Rosa compôs o samba Onde está a honestidade? que foi gravado ao longo dos anos seguintes também por Beth Carvalho, Paula Toller e Ivan Lins, entre outros. De início me delicio, mas confesso que, ao terminar de ouvir, meu desejo é chorar. Frases extraídas da letra de quase cem atrás, absolutamente atual:

“Você tem palacete reluzente, tem jóias e criados à vontade e sem ter nenhuma herança nem parente, só anda de automóvel na cidade. O seu dinheiro nasce de repente e embora não se saiba se é verdade, você acha nas ruas diariamente anéis, dinheiro e até felicidade. Vassoura dos salões da sociedade que varre o que encontrar em sua frente, promove festivais de caridade em nome de qualquer defunto ausente... E o povo já pergunta com maldade: onde está a honestidade? Onde está a honestidade?”

Com raríssimas exceções, é ou não é o retrato das eleições brasileiras?

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários