Não, Machado de Assis nunca esteve em Franca. Aliás, o grande escritor brasileiro pouquíssimas vezes saiu do Rio de Janeiro. De fato, há registro apenas de uma ida à cidade mineira de Barbacena e duas vezes à fluminense Petrópolis. Isso não lhe tira a qualidade de conhecedor do mundo, porque, como leitor, conheceu tudo.
O Bruxo do Cosme Velho, como é chamado, foi um grande cronista, comentando os acontecimentos, sobretudo da segunda metade do século XIX. Embora discorresse sobre fatos diversos, acreditava-se que o escritor nunca tivesse falado de Franca. Mas um criterioso trabalho de pesquisa, publicado recentemente, atribuiu a ele a autoria de crônicas que não tinham sua assinatura. E não é que numa delas Franca está presente?
O episódio que mereceu a atenção de Machado de Assis ocorreu em 1870. Em 1º de setembro daquele ano, iria ser inaugurada em Franca a escola noturna, dirigida pelo professor Antonio Joaquim Martins da Cunha. O colégio havia sido criado às expensas da maçonaria, por meio da Loja América.
No entanto, os professores não contavam com a ira do conservador padre de Franca, Candido Martins da Silveira Rosa. Ao saber da inauguração da escola, ele - que era um crítico da maçonaria - marcou para o mesmo dia e hora um terço, no qual fez discursos duros contra todos os que fossem à escola.
A história foi publicada no respeitado Correio Paulistano, em 23 de outubro. Em 6 de novembro, o cronista Machado de Assis comenta o caso dizendo que não há coisa pior do que “impedir que o povo aprenda a ler”.
O padre, como anota Machado de Assis, era deputado provincial e atuante nas fileiras conservadoras. A disputa contra a maçonaria, portanto, obnubilada por supostas questões religiosas (o padre dizia que os maçons queriam acabar com a Igreja católica), era na verdade contra as luzes do liberalismo que carregavam.
Mas o caso não termina aí. O padre Candido usou a imprensa para responder às acusações. E, em 22 de dezembro, o influente Jornal do Commercio publica extenso artigo do clérigo explicando seus motivos. O padre dizia confiar “na independência de caráter e na sinceridade católica das famílias francanas”.
Em 25 de dezembro, Machado de Assis analisa o artigo do vigário da Franca. O imortal, com sua conhecida ironia, anota que o padre gastou três colunas em letra miúda: “Vê-se que é um homem de pulso e de fôlego”. Ao contrário, em poucas linhas, Machado diz que aconselhar o povo a não ir à escola é coisa que “não se compadece com a missão de um cura de almas”.
Quanto à crítica de que a maçonaria seria contra a religião católica, Machado informa que o então chefe da mencionada fraternidade no Brasil era dos mais sinceros católicos e que não acreditava que eles se preocupassem “em reformar teologias”.
E continua o fundador da Academia Brasileira de Letras: “Suponhamos, porém, que a escola noturna da Franca fosse realmente um seminário de heresias; para um sacerdote católico era ocasião excelente de confundir o erro e dar triunfo à causa da verdade”.
Convenhamos que, para além das polêmicas, padre Candido prestou grandes serviços à comunidade. Um deles, agora descoberto, foi este: ter feito Machado de Assis falar de nossa Franca.
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