Assim que o sol riscava o horizonte com seus traços dourados, o menino e o pai dirigiam –se ao curral, para tirar leite de uma vaca escolhida que fornecia o alimento para a família. Um ventinho frio despedia-se com a noite, surgindo uma manhã radiosa.
Duas graciosas meninas, de mãos dadas, uma de cabelos loiros e lisos e a irmã de cachos escuros, aproximaram-se com leveza e com expressivos olhares nos olhos.
A moreninha mais velha falou, docemente:
__ Queremos nos despedir, papai já chamou o carro para nos levar à rodoviária!
A família estava se mudando para uma cidade perto de Goiânia, em GO, onde familiares os aguardavam. O pai delas, senhor Francisco, era artífice, profissão muito requisitada na época dos anos 60, quando a tecnologia não havia chegado ao interior. Admirado por sua inteligência e criatividade era capaz de fazer os mais diversos objetos em ferro como facas, machados, enxadas, peças de arado, consertá-los e reformá-los, deixando-os como novos.
A travessia da família foi difícil, mas próspera. Em Goiás, senhor Francisco formou dois filhos médicos e uma advogada, tendo os enviado à capital, cursar a Universidade. Maria de Fátima e Lúcio apaixonaram-se quando ainda cursavam Medicina e, após formados, empreenderam uma segunda, arriscada e esperançosa travessia para uma cidade do interior do Norte do país.
No início lutaram com muitas adversidades, mas logo foram sendo respeitados e aceitos pela população da cidade. Iniciaram a construção de um pequeno hospital e maternidade. Com trabalho, organização e parcerias, é hoje o principal da região. O vigor e determinação dos jovens progressistas levou-os ao sucesso. Lúcio, líder nato, culto, com o dom da oratória, amante das letras e artes, de grande visão, logo foi convidado a participar de eleições para exercer cargos públicos. Devido aos seus talentos, carisma e comprometimento com o bem da comunidade foi eleito várias vezes prefeito, deputado, chegando a governador. Aquela menina loirinha e tímida tornou-se primeira dama do Estado, foi morar na capital. Porém, manteve os vínculos com a cidade, priorizando sua profissão, o hospital que fundaram, incentivando a carreira de novos médicos, esclarecendo as pessoas com programas e projetos sociais, levando uma luz de esperança para os habitantes de lá que os acolheu, acreditando neles e muito receberam em troca.
Maria de Fátima nunca se esqueceu de sua origem humilde e da terra onde nasceu, à beira do Rio Grande onde todas os dias os sonhos das pessoas nascem com o raiar do sol.
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