Uma “brincadeira” com conotação sexual e suposta oferta de vantagens em troca de imagens de nudez entre um professor de Direito Penal e uma aluna da Faculdade de Direito de Franca terminou com suspeita de assédio e muitas discussões nas redes sociais nesta terça-feira, 29. O Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito, que representa os alunos, cobra uma sindicância para apurar o caso. O vice-diretor da FDF, José Saraiva, disse que uma investigação minuciosa será feita e que punições poderão ser aplicadas ao professor se for comprovada alguma conduta incompatível.
O episódio que deu origem à polêmica aconteceu na noite de segunda-feira, dia 28, durante uma aula virtual de Direito Penal ministrada pelo professor William Tristão. Uma das alunas que assistia a aula estava com a câmera desligada, acompanhando apenas por áudio as explicações de Tristão. O professor, num certo ponto, solicita à aluna, que pediu para não ter seu nome divulgado, que ligasse a câmera. A estudante se recusa e justifica que está sem roupa porque vai tomar banho.
“Abre a câmera aí”, diz o professor William Tristão. “Não dá”, responde a aluna. “É tão horrível”, diz o professor, insistindo para que ela acionasse a câmera. “Não é isso não, é porque eu ia tomar banho e tô sem roupa. Não posso abrir”, diz a aluna, numa fala descontraída.
Tristão então insiste, com mais veemência. “Abre a câmera aí”. A aluna, mais uma vez, se recusa. “Não vou abrir”. O professor, então, sorrindo, volta à carga. “Ou, você tá te sacanagem comigo”. A aluna mantém a recusa. “Não, tô falando sério”. Tristão continua. “Sério que você me falou isso no meio da aula?”, pergunta. A aluna rebate. “Você vai ficar insistindo, melhor já falar a verdade, né (que estava nua)”, diz a aluna.
O diálogo ganha, a partir daí, contornos mais complicados e que dão margem a dupla interpretação. “Meio ponto”, avisa o professor. “Obrigado”, diz a aluna, que entendeu que havia ganho a nota extra. “Não, (o meio ponto) é para você abrir a câmera”, diz William Tristão. “Nãaao. Eu estudo”, diz a aluna. O professor continua. “Acha que eu vou te dar meio ponto para você abrir o áudio e vir me chatear?”, afirma. A universitária nega e diz que “abrir a câmera não vale” a pontuação. Depois, o professor segue conversando com ela e retoma a aula. Antes que a gravação divulgada terminasse, Tristão diz a um outro aluno. “Ela me provocou”.
O vídeo com a conversa, que acabou sendo compartilhado nas redes sociais, foi interpretado por muitos como assédio sexual e moral acompanhado de extorsão, onde o professor utilizaria a pontuação extra como argumento para que a aluna aceitasse se exibir nua.
Reações
O professor William Tristão nega a acusação. Segundo ele, tudo foi falado em tom de brincadeira e ele nunca realizou nenhum tipo de ação buscando desrespeitar seus alunos. “Em nenhum momento houve assédio. Amanhã (hoje) irá sair uma nota minha, do vice-diretor da faculdade e da aluna esclarecendo a questão e desmentindo o diretório acadêmico, que irei processar por crime contra a honra”, disse Tristão. “A própria aluna me ligou e disse que não se sentiu assediada. Ela falou o mesmo para o vice-diretor”, completa o professor, que alegou ter intimidade com a aluna.
“Eu já a conhecia. Os nossos pais trabalharam juntos e existia um contato anterior. Nós temos uma amizade. Em minhas aulas, eu busco descaracterizar a imagem de um professor de Direito. Eu faço, sim, brincadeiras, mas nunca com objetivo de envergonhar ninguém. Vocês podem procurar na instituição quantas reclamações existem contra a minha pessoa: nenhuma”, afirma.
O professor de Direito Penal desmentiu também boatos que circularam ontem de que tenha sido demitido de outra faculdade por eventos parecidos. “Eu já dei aula em outra instituição aqui em Franca e fui mandado embora por ter notificado (a faculdade) na Justiça. Eu tenho uma ação trabalhista contra eles”, afirmou. “O que pode ter gerado confusão foi que eu namorei uma aluna de lá. Mas não foi um simples caso. Nós namoramos durante quatro anos e meio e isso não teve absolutamente nada a ver com a demissão”, disse.
A universitária da FDF envolvida no caso negou ao portal GCN o assédio e afirmou que quer evitar interpretações erradas sobre a situação. Além disso, a aluna disse que a parte da aula divulgada foi tirada de contexto. “Não houve assédio. A situação foi distorcida e não mostrou toda a situação. Não quis e não quero me identificar pois estou sendo exposta”, disse a aluna. “Eu sou a ‘ofendida’ e ninguém escuta o que eu falo. Parece que só querem aparecer e prejudicar tanto a mim quanto a faculdade e o professor”.
O Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito de Franca divulgou uma nota de repúdio contra o docente “O Diretório Acadêmico 28 de março vem repudiar os atos de assédio moral e sexual denunciados pelos alunos da Faculdade de Direito de Franca. Reiteramos, como uma pauta já expressa, que todo e qualquer tipo de abuso agravado pela manipulação através das relações de poder instituídas na academia são absolutamente inaceitáveis. Tais práticas, apesar do tom de brincadeira, ferem não apenas a ética das relações educacionais, mas o próprio processo de construção científica e a responsabilidade das instituições na formação de recursos humanos”. O diretório protocolou ainda um ofício requerendo a abertura de uma sindicância para avaliar a conduta do professor.
A direção da Faculdade de Direito de Franca afirmou que vai apurar o que aconteceu na aula e ouvir todos os lados envolvidos. O vídeo integral da conferência ainda será detalhadamente analisado. Caso seja constatado qualquer tipo de assédio ou desrespeito, o professor poderá sofrer punições que vão desde o afastamento até a exclusão.
“A nossa faculdade repudia qualquer forma de preconceito, violência, discriminação ou atos voltados para cunho ofensivo. Isso vale para professores, alunos ou terceiros. Somos uma instituição reconhecida e não compactuamos com qualquer prática dessa natureza. Investigaremos a ocorrência e, caso necessário, aplicaremos punições”, disse o vice-diretor da FDF, José Saraiva. O representante da faculdade disse ainda desconhecer a “nota conjunta” que seria divulgada pelo professor Tristão, a aluna e a instituição. “Não chegou ao meu conhecimento esta informação”.
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