Andarilha

Por Baltazar Gonçalves | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 1 min

já no meio caminho da sua vida percorrida

dormia em si e bastavam-lhe as migalhas

dadas por homens perfeitamente satisfeitos.

 

Sombra sonâmbula flâmula tremula esquálida

na contraluz de si mesma era quem nada sabia

sedenta de não ver a clarividente erupção

saiu para fora de si, deu costas ao conhecido

alargando seu êxtase até quase a morte

tornou-se na claridade livre andarilha

 

agora conta que o trabalho a consome

sem paciência para o vazio das ideias

ela me diz que lê pouco, o suficiente

e escreve sempre a manter a sanidade.

me esclarece a pedra de Drummond

diz que desde Dante pedra é caminho,

ela acrescenta uma joia de itabirito

na jornada que deve seguir sozinha.

ela me diz que prefere fazer nada

a fazer qualquer coisa sem propósito relembra o que a levou quase à morte

na agonia dos vícios banais profundos

fortuna e má sorte, afirma sorrindo

diz que via do precipício cá embaixo

a si mesma grávida, letárgica e vazia

como a concepção da Virgem Maria. ela

abre com as mãos o magma e mergulha

sonha saber naufragar os seus sonhos

habita e canta a febre que a acometeu

derrete o metal aplainando palavra dura. ela me convence: ventura é cair! e rimos

ouço calado quando diz: amigo, andei muito

eu sou andarilha – uma palavra mordida.

 

ela é minha e eu sou dela flor

não há força que a impeça

nada estanca seu caminho

 

rara abre-se na própria dor.

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