Em visita a prestigiado museu que exibia como atração a devastação causada pelas guerras que marcaram a história da Europa, a foto ampliada da livraria tomava por inteiro a parede de fundo da sala e, por causa da iluminação, dos efeitos dos jogos de luz, mais a ambientação estratégica, nos colocava, meros espectadores, como participantes inseridos e partícipes da cena dantesca, ocorrida nos anos 40, em plena Segunda Guerra Mundial. Mesmo hoje, não saberia dizer se o que impressionava mais eram os escombros; a fleugma dos senhores ingleses de chapéu e sobretudo olhando os restos das prateleiras; a fuligem fantástica e diabólica; a tristeza da cena. Ou tudo isso junto. Diziam, a cena teria sido tomada no dia seguinte a um dos bombardeios que destruíram o centro de Londres. E a livraria seria a Hatchard, ao lado da Fortnum & Mason, a loja onde a Rainha Elizabeth costuma buscar matéria prima para seus chás das cinco, na calçada oposta à Royal Academy of Arts, na Piccadilly Road, 187. Bem no centro de Londres. Considera-se passeio turístico visitar essa livraria, tal sua importância. Segundo a placa pendurada em sua entrada, foi inaugurada em 1797 e está nesse endereço há mais de 200 anos. São quatro andares, nos quais se encontram livros recém-lançados, best sellers e outros, antigos, com autógrafos de seus autores. São exibidos como troféus e rivalizam em importância, pompa e circunstância com as obras de arte que a Royal Academy, a magnífica construção vizinha e situada logo em frente, na calçada oposta, exibe sazonalmente. É a livraria favorita da família real e três Royal Warrant – selos e brasões de aprovação real atestam que a rainha, o Duque de Edinburgh e o príncipe Charles reconhecem a importância do estabelecimento. Na fachada retrô, sobre as bay windows de vidro, três brasões dourados mostram a importância e significado do prédio para os transeuntes. Pequena entrada, escadas de madeira que levam às entranhas do prédio, mesas com livros alguns raros e outros recém-lançados, que poderão, quem sabe? um dia serem alçados à categoria de raridades. Dentro da livraria, a ala totalmente dedicada à primeira edição de autores como Margareth Atwood (O Conto da Aia e O Assassino Cego), Samuel Beckett (Esperando Godot e Happy Days), DH Lawrence (O Amante de Lady Chatterley e Mulheres Apaixonadas). E, atrás dos vidros de proteção, sobre mesas estrategicamente colocadas, os livros autografados, peças raras e cobiçadas, mas que não estão à venda. São troféus. Na mesma rua, mesma calçada, número 196 A, existe outra livraria, Maison Assoline, onde o cliente pode, além de verificar os últimos lançamentos em livros que são verdadeiras obras de arte finamente editados, almoçar em suas dependências, mediante reserva antecipada de mesa. Versões diferentes de livros, paixão inglesa, que são encontrados nas mãos dos visitantes dos verdes parques que estão nas imediações, dos usuários de transporte público, daqueles que apenas tomam seu café ou aguardam companhia sentados nos bares chiques do bairro. Os livros da Maison são tiragens limitadas e exclusivas, muitos deles são manuseados apenas por funcionários que usam luvas: mãos laicas devem se manter à distância daquelas raridades. Inesquecíveis. A cena perpetuada pela foto, é evidência da bestialidade e do poder de destruição do ser humano, o mesmo que cria obras literárias que envolvem sentimentos, que se emociona diante de textos belamente escritos, engendra tramas mirabolantes e originais.
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