Navegando ainda em mar revolto, e nenhum céu de brigadeiro à vista, percebo que a oferta de vídeos de culinária na internet no mínimo triplicou. Cozinhar tornou-se necessidade, enquanto a boa nova dos encontros sociais não chega. Talvez pelo meu explícito interesse, me enviaram alguns incríveis, de receitas que me deslumbraram e culturas que me surpreenderam.
Considerei um ganho conhecer outros modos de buscar alimentos e preparar refeições. Vi meninas cozinhando em lugares tão distantes que demorei a descobrir que era a Tailândia. Não a turística, dos templos magníficos. Mas a das regiões do interior, como a zona rural de Mukdahan, na foz do rio Mekong, nordeste do país. No menu há peixes, caranguejos, frango, pato, porco. Carne de vaca, bem pouca. Os legumes são viçosos e há folhas que não conheço. Pimentas verdes e vermelhas, onipresentes. Dezenas de temperos. Arroz branco, sempre.
Tudo é apanhado na hora, colocado em peneiras de bambu e levado para o que se poderia chamar de quintal. Ao ar livre, três grandes pedras fazem o papel de fogão. Uma jovem atiça fogo nuns galhos secos e enquanto espera pelas labaredas, prepara os ingredientes. Pode ser jaca verde, colhida de árvore próxima, partida com afiada machadinha pela qual eu daria meu reino se o tivesse. Alguns temperos são acondicionados em pacotinhos improvisados com folhas. Um líquido espesso e escuro à base de tamarindo aparece do nada. O molho com muitas pimentas, alho e suco de limão já foi preparado.Um número impensável de combinações para assar, cozinhar ou fritar me surpreende. A criatividade é impressionante. Mas o que me deixou deveras admirada, conto a seguir.
A mulher que ia cozinhar não era tão jovem como as outras que eu vira. Mas o contexto de rusticidade era o mesmo. Ela trazia numa bacia pedaço grande de barriga de porco. Lavou a peça várias vezes e depois a apoiou numa tábua para fazer aqueles cortes característicos na pele. Em seguida besuntou-a com muitos condimentos de várias cores e texturas. Quando as chamas viraram brasa, colocou a carne na panela grossa, cobriu com água e mais especiarias. Enquanto esperava, sentou-se, um olho na carne e outro nas estripulias de um mico e quatro cachorros.
Quando a carne ficou pronta, eu pensei que aquilo provocaria inveja em chefs renomados. Dourada, brilhante, os talhos bem nítidos, uma obra de arte culinária. A tailandesa a partiu em pedaços, colocou numa peneira de taquara e levando-a a tiracolo caminhou para lugar oposto ao do fogo. Eu tinha como certo que ela iria oferecer a iguaria a convidados especiais. Mas contrariando a minha percepção, sentou –se no chão, sobre folha de bananeira, e separou um pedaço da panceta para si. Colocou outro sobre pequena pedra e se expressou em bizarras onomatopeias, às quais responderam os quatro cães que a tinham assistido no preparo da comida. Então os cinco degustaram com apetite voraz aquela delícia. Os cinco, não; os seis, porque a porção em cima da pedra era destinada ao mico que chegou em seguida.
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