Setembro é o mês Mundial de prevenção ao suicídio, campanha conhecida como Setembro Amarelo, com a ideia de conscientizar as pessoas sobre o assunto e entender as questões que geram sofrimento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma pessoa comete suicídio a cada 4 segundos no mundo, o que corresponde a 800 mil mortes por ano. O Brasil está em oitavo lugar entre os países do mundo com mais casos de suicídio e 90% deles poderiam ter sido evitados.
Para a supervisora de psicologia da Unimed Franca, Sueli Burgarelli, a campanha é importante para que a questão possa ser tratada como um problema de alcance social e mesmo cultural, evitando um excesso de culpa que geralmente é posta sobre os indivíduos. “Serve para permitir que os sujeitos encurralados por suas próprias escolhas possam ainda ter a opção de escolher, mais uma vez, retirando o suicídio do âmbito do inevitável”, comenta. A psicóloga garante que falar sobre suicídio é necessário, “desde que esta fala descortine possibilidades e perspectivas, implique desejo e responsabilidade. Pois a fala também pode ser recurso para aprisionamentos vários, a depender de como o sujeito se implica naquilo que diz”.
Ainda de acordo com Burgarelli, para que o suicídio se configure como uma escolha viável para o sujeito, a noção de futuro precisa estar de alguma maneira inviabilizada, prejudicada a ponto de não haver possibilidade de lançar-se em algo que ainda não se consolidou. “É preciso que a capacidade de sonhar mundos ainda não existentes esteja desabilitada para que o sujeito recorra ao suicídio como uma saída possível para seus impasses existenciais”, finaliza.
Confira a seguir a entrevista sobre o tema com o Dr. Thales Leoncio Paim, médico psiquiatra da Unimed Franca, graduado na Universidade de São Paulo (FMRP-USP), especialista em dependência química pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e em terapia de casal e de família.
Por muitos anos, falar sobre suicídio foi um tabu. Você poderia contar como está a situação do suicídio atualmente e qual seria a importância da campanha Setembro Amarelo?
Dr. Thales Leoncio Paim:Realmente, por séculos, falar sobre suicídio foi um tabu pelo fato de ser um tema que, se abordado de modo equivocado pode ter efeito de estimular o suicídio. Felizmente, a abordagem do assunto mudou e precisamos falar sobre isso, desde que façamos de modo técnico e cuidadoso.
O suicídio sempre foi um grave problema de saúde pública no mundo todo e isso levou a Organização Mundial da Saúde a classificar o suicídio como uma das prioridades globais de saúde pública e a estimular campanhas de prevenção de suicídio pelo mundo.
Após essas medidas, as taxas globais de suicídio reduziram em 83% dos países nas últimas décadas, o que mostra a importância de campanhas como “Setembro Amarelo”.
Infelizmente, no Brasil, o número de suicídios continua aumentando, principalmente entre os homens jovens e adultos, o que nos desafia a buscar ampliar as estratégias de prevenção que já temos utilizado, bem como criar novos programas que nos auxiliem na luta pela vida dessas pessoas.
Em Franca, as taxas de suicídio acompanham a média nacional e estadual, com maior predomínio entre os homens.
E quem são essas pessoas que tentam suicídio?
Dr. Thales:Estima-se que 90 a 98% das pessoas que cometeram suicídio estavam sofrendo de algum problema psiquiátrico, como depressão, transtorno afetivo bipolar, transtornos psicóticos, dependência química ou Transtorno de Personalidade Emocionalmente Instável (Borderline). O risco é ainda maior quando a pessoa apresenta mais de uma destas patologias. O perfil mais frequente de suicídio é homem, idoso, solteiro e que esteja com algum problema psiquiátrico.
E como identificar uma pessoa em risco de suicídio?
Dr. Thales:Existe uma "regra dos D" na prevenção, com termos que facilitam a detecção de pessoas com risco de suicídio com as seguintes palavras: "Depressão, Desesperança, Desespero, Desamparo e Delírio".
O que uma pessoa leiga que conhece alguém nesta situação pode fazer para ajudar?
Dr. Thales:De modo geral, nós temos uma tendência a evitar assuntos difíceis e tristes. Outra dificuldade nesses casos é a pessoa ter medo de perguntar sobre o suicídio com receio de induzir quem está sofrendo a pensar em suicídio, e isso é um erro. O que a gente precisa é ouvir com empatia e ser delicado ao perguntar sobre pensamentos de morte.
É importante lembrar que, quando uma pessoa está com depressão, geralmente ela encontra-se num estado de desânimo intenso, tristeza, desesperança, redução de energia, além de outros sintomas, e nesse estado a pessoa pode não ter energia ou iniciativa para agendar uma consulta e de se organizar para ir até essa consulta. Nesses casos, um familiar ou amigo deve conduzir a situação.
Nos casos mais graves, ela deve ser levada imediatamente para o Pronto Socorro para uma avaliação médica.
Quando essa ajuda acontece, além de todo o benefício do tratamento, a pessoa em sofrimento percebe que não está sozinha, que é importante para alguém, e isso renova sua esperança de que há um tratamento que pode ajudá-la.
Você comentou que o suicídio vem crescendo entre os jovens no Brasil. Na sua avaliação como terapeuta familiar, quais seriam os motivos para esse aumento?
Dr. Thales:Nós precisamos ter muito cuidado ao falar de causas para o suicídio, pois trata-se de um problema de múltiplas causas - genéticas, sociais, familiares e culturais - e não podemos ser simplistas em afirmar que o problema do suicídio é este ou aquele. Porém, podemos destacar alguns fatores que podem contribuir para esse aumento.
Ao analisar a história social da família, observamos que, por séculos, as crianças eram vistas como serem imperfeitos, adultos incompletos, seres desprovidos de direitos e repletos de deveres. As últimas gerações de pais passaram a ver os filhos como sendo muito especiais, repletos de talentos e que iriam ter muito sucesso e felicidade.
Se por um lado os pais atuais são extremamente carinhosos, atenciosos, disponíveis, atentos aos mínimos detalhes; por outro, se tornaram demasiadamente focados em agradar os filhos e com muita dificuldade em frustrá-los ou de impor autoridade. Temos criado filhos despreparados para enfrentar as dificuldades da vida, sem resiliência.
Além disso, notamos atualmente nos adolescentes um aumento do distanciamento dos familiares em assuntos difíceis e, apesar de lares com muito amor, há o predomínio de lares com pouco diálogo. Essa combinação tem gerado adolescentes cada vez mais enfraquecidos, isolados de seus pais, impulsivos e em busca de satisfação imediata. Isso aumenta o risco de se sentirem incapazes frente a um problema e buscarem uma solução definitiva para algo que deveria ser visto como transitório.
Você acredita que o isolamento social ou o medo relacionados à pandemia da Covid-19 impactaram diretamente na saúde mental das pessoas? E como podemos atenuar este sofrimento?
Dr. Thales:Sem dúvida o impacto da pandemia na saúde mental tem sido grande. O prolongamento da duração da pandemia além do esperado inicialmente e sua imprevisibilidade tem angustiado a todos.
Esse cenário tem se mostrado muito sofrido, tanto para os que adoeceram ou perderam entes queridos, como para os que não adoeceram, por ser um contexto tão incerto, desafiador, gerador de ansiedade, angústia, medos, distanciamento físico dos familiares e dos amigos, dificuldades financeiras e até mesmo famílias que chegaram a passar fome por não conseguirem manter suas fontes de renda.
É a chamada “quarta onda da Covid-19” na qual o sofrimento psíquico se acentua e ocorre aumento dos casos de depressão, ansiedade, pânico, estresse pós-traumático, abuso de álcool e drogas, entre outros; e, quando não identificados e tratados, podem evoluir para o suicídio.
No meu modo de ver, a melhor maneira para combatermos e atenuarmos tais sintomas seria uma intensificação na nossa capacidade de cuidarmos um dos outros, de cada cidadão ficar atento aos sentimentos e necessidades de seus familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, e, ao perceber que alguém está em sofrimento, levar essa pessoa para um atendimento especializado com médico psiquiatra ou um psicólogo.
Certamente uma sociedade mais empática e solidária sofrerá menos para superar essa fase e poderá sair dela mais humana e fortalecida.
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