A Vila Gosuen sofre há tempos com a criminalidade em suas ruas e redondezas. No local, que é popularmente conhecido como “Puxa-faca”, já foram registrados assassinatos, agressões e roubo. Fora isso, é comum flagar pessoas consumindo e vendendo drogas na região.
Na tentativa de encontrar uma justificativa para a violência, muitos moradores do bairro, localizado na zona Norte de Franca, acabam relacionando o caos que se instalou na região à presença do Abrigo Provisório e da Casa de Passagem, que atendem principalmente moradores de rua.
As autoridades, porém, negam a relação entre os crimes e a presença dos equipamentos de assistência social, mas concordam que a situação é um desafio para os governantes.
Padre Ovídio, presidente da Pastoral do Menor, entidade que administra o Abrigo Provisório, afirma que o estado da vila realmente é desolador. No entanto, ele diz que isso está longe de poder ser resolvido pelas instituições que dão auxílio aos moradores de rua. “É, sim, uma situação muito triste. Algo humilhante e angustiante de se ver. Porém, ultrapassa o nosso alcance. Não é nossa culpa.”
Ovídio descarta que os equipamentos públicos de assistência social instalados no bairro possuam ligação com a criminalidade, afirmando que a presença dos moradores de rua no local já era algo enraizado. “Não se deve culpar o Abrigo, já que isso é uma questão histórica. Esse serviço está instalado naquela região desde 1978 e, àquela época, já existia um projeto para acabar com a mendicância. É um problema de grandes dimensões.”
A secretária de Ação Social, Eliete Neves, não acredita que a presença do Abrigo Provisório e da Casa de Passagem tenha a ver com as ocorrências do local. “A maioria das pessoas que fica naquela região não são de rua. São moradores da imediação que se reúnem para utilizar drogas e passar o dia ali.”
Padre Ovídio defende que o apoio à população de situação de rua é algo necessário, sendo garantido, inclusive, pelas leis. “Com esse tipo de trabalho, nós atendemos todo tipo de pessoa. São homens, mulheres, migrantes, gays, lésbicas, transexuais e travestis que fazem das ruas a sua morada e, muitas vezes, apresentam histórias sucessivas de violação de seus direitos humanos. Eles sofrem com situações que provocam danos e agravos às suas condições de vida e os impedem de usufruir de autonomia e bem-estar. Por conta disso, hoje existem tantas políticas que tentam garantir acolhimento e exercício de igualdade para essas pessoas.”
O presidente da Pastoral também crê que situações como a da região da Vila Gosuen só poderão ser resolvidas caso existam ações coordenadas do poder público. “É uma questão que ultrapassa a assistência social e envolve a segurança pública, a justiça, a educação e a saúde. É necessário e urgente que haja o trabalho conjunto e articulado de todas as políticas públicas com a sociedade para resolver ou minimizar essa situação que assola não só o nosso país, mas o mundo todo. Essas pessoas tiveram as suas vidas marcadas pela negação de seus direitos e precisam de maior atenção.”
“Acredito que este seja o maior desafio para todo administrador público: articular e envolver todas as políticas públicas e sociedade para juntos encontrarem soluções adequadas para os problemas”, completa Pe. Ovídio.
Remoção de barracas
Recentemente, uma operação retirou barracas de moradores de rua que estavam instaladas em frente à Casa de Passagem, na Vila Gosuen.
A ação, que contou com a participação das secretarias de Ação Social e Serviços, além do acompanhamento da Guarda Civil Municipal, aconteceu no dia 25 de agosto e removeu seis barracas.
O coordenador de Ação Social de Franca, Milton Querino, que acompanhou a operação da Prefeitura, afirmou que os desabrigados foram orientados a procurar o programa de pernoite provisório, que é sediado no ginásio do Champagnat e pode atender até 54 pessoas em situação de rua em meio à pandemia, lhes oferecendo banho, comida e higienização.
O Abrigo Provisório
O Abrigo Provisório, instituição de assistência social coordenada pela Pastoral do Menor, atende hoje, em parceria com o município, 48 pessoas. Os moradores de rua são convidados a se instalar no local, onde são realizadas diversas atividades com o intuito de ajudá-los a, futuramente, retomarem as suas vidas.
No abrigo, são exercidas regras de convivência que preservam a dignidade e individualidade de cada usuário. De acordo com os administradores, o local “preza pela Política Nacional para a População em Situação de Rua, pregando a igualdade e respeito à dignidade da pessoa humana”.
Passagens para outras cidades
Além dos atendimentos, Franca está pagando passagens para que pessoas “presas” na cidade possam retornar aos municípios onde residem.
"Àqueles que são de outros municípios, estamos fornecendo passagem para eles retornarem para seus municípios de origem. Tanto é que quem vai para a as casas de assistência é para ficar temporariamente, até que se providencie o transporte para que eles retornarem para suas cidades. Ficam em Franca apenas aqueles que moram em nosso município", afirmou Eliete Neves.
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