Ciranda em dia de festa

Por Baltazar Gonçalves | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 2 min

Quem julga ver do alto aos poucos nota diferença na perspectiva. A sombra do paredão cobre a roça e a estrada recortada de mata-burros. O voo de uma abelha descreve escala fria no ar da manhã. Nossa tia prepara mistura de ervas, soda e anil e diz que o vestido de Rosa ficará mais branco quando for à quermesse. De fato isso acontece no varal agora.

Numa ponta de vara Rosa equilibra o mundo no quintal. Rabisca no chão um círculo perto das moitas de inhame enquanto os homens retornam para o almoço e dão com a notícia de que a chuva em BH deixou vítimas. As palavras do tio buscam sentido: os ladrões vieram do Espigão ainda noite. Levaram os bois pela serra. Arrombaram a cerca. Tinham carro esperando - mais comida é posta.

Distraída Rosa toca um rebanho de dragões, faz zunir a vara e desenha mundos. Esquece o ermo da serra, o vazio no estômago. Prefere sonhar a comer. Nas roupas alvejadas no varal a sombra do monjolo cria figuras disformes.

Nesse estado perene os dias passam em turnos de bem-te-vis. A vida que não coube, o que chamamos fatos, se agrupa em ciranda. Para inventar o mundo foi preciso dormir cedo. Hoje é o dia da festa. O aroma do café agrega lembranças à luz que vem das frinchas de entre as telhas e o resultado na fina malha parece um texto em braile.

Onde está o Menino? Na caixa! Rosa pergunta, responde e vai brincar com o boneco que estava guardado em cima do guarda-roupa. Tem cabeleira desenhada, sapatos e meias de verdade, é desses de pano e cabeça de papelão para os quais a tia prefere costurar, foi presente de aniversário do ano retrasado ou de antes e conserva, se não for exagero a liberdade poética, algo distante no modo de olhar quando é retirado do caixote que lembra mais oratório que embalagem de presente.

Rosa pergunta ao boneco se a terra é mesmo plana e chata. Na conversa de gente grande é melhor não por sentido. O choro recortado de interjeições que vem da varanda. Se alguém liga o rádio é só para sabermos que a música não fará mais que aborrecer a todos. Ninguém irá à quermesse. Os ladrões não foram pegos e...

O silêncio traduz o esperado, nosso pai morreu. De desgosto dirão alguns; de avareza, outros. De nós haverá sempre uma história a ser emendada quando nenhuma história interessar mais.  

Tia, o que conforta o coração?

O telhado parece o céu, alto demais e sempre escuro.

Nada conforta, bonecos não sentem sono?

Com medo que essa noite nunca termine Rosa adormece ouvindo salve-rainhas.

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