Disposições

Por Lúcia Brigagão | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Das lembranças deixadas por mamãe, a mais preciosa é a da sua figura sentada na poltrona na sala, recém saída do banho: perfumada; vestido de malha (que não amassava); colar e brincos de pérolas; relógio; cabelo no lugar e fixado com laquê, aquela onda sobre a testa; a bolsa (pesadíssima), prontinha,  sobre a poltrona e o xale cuidadosamente jogado sobre ela parecendo uma composição para um quadro. O perfume francês dando o toque final pairando feito uma nuvem no teto e invadindo o nariz da gente feito geléia.  Insisto em me lembrar dela assim, porque a figura sobre a cama na sala de terapia intensiva, cheia de tubos entrando pelo nariz e pela boca, vestida com camisola branca sem amarrar despencando pelos ombros; pernas, braços e esfíncteres sem controle; cabelos com raízes crescidas depois de um mês sem tintura ou qualquer condicionador, mais o barulho do respirador artificial fazendo as vezes de uma trilha sonora macabra ... definitivamente não é recordação. É pesadelo. 

Muitas vezes conversamos com ela sobre morrer. Tinha medo de defuntos porque na infância haviam forçado sua presença no velório da avó e obrigaram-na a beijar a falecida. Pouquíssima idade, carregou o pavor daquele instante pela vida afora. Nós, filhos, falávamos e víamos com naturalidade – vai ver até pelo cuidado que teve de nos informar - esse episódio. Ela brincava com o assunto mas, dizia, não queria morrer, de jeito nenhum, e tinha medo, confessava. Argumentávamos que era incoerência: sua religião prometia reencontro com seus pais, com meu pai, parentes que ela amava e até com outras pessoas com as quais ela nunca escondeu algumas pinimbas ... “Morrendo você vai se reencontrar com....” e a gente completava com o nome de algum desafeto. “Por isso mesmo, não quero morrer!” E ela ria gostosamente. (Esse som eu ainda escuto quando bate a saudade.)

Ficou doente. Levou um tombo, foi hospitalizada, seu organismo rapidamente se deteriorou, coisa de um mês faleceu. Foi atordoante.  Do quarto foi levada para a terapia intensiva. Lá ficou inconsciente, traspassada por tubos, num sono profundo, alheia e completamente distante de qualquer carinho que pudéssemos lhe fazer ou demonstrar. Durante visita, profundamente angustiados, perguntamos ao plantonista sobre a possibilidade de mudança do quadro. Ele respondeu que ela sofrera parada cardíaca durante a noite que fora revertida por outro médico. Se ele estivesse presente, disse, não teria feito esforço para prolongar o sofrimento dela. Entendemos o recado.

Sobre morrer, inútil questionar: mais dia, menos dia partiremos.  Sobre quando morrer, ninguém - mentalmente são – pode deliberar.  A causa do morrer constitui outro mistério. Agora, como morrer, pelo menos a gente pode sugerir para os que ficam tomando conta. Então, particularmente imploro... Me deixem morrer com dignidade. Se não tiver a sorte de morrer subitamente ou dormindo,  que não prolonguem inutilmente minha estada neste mundo.  Que não transpassem tubos no meu corpo; que não botem aparelhos para fazer mecanicamente funcionar esse meu coração tão inconstante, arrítmico e empedernido. Não revitalizem os pulmões que sobrecarreguei com fumaça e fuligem. Prefiro cremação ao sepultamento.  Por mim, só posso entender como egoísmo injustificado prolongar neste mundo a estadia de alguém inconsciente, com seqüelas e lesões profundas, justificando a permanência pela apresentação de “reações vitais”, apenas mecânicas.

Nesse particular momento, sob emoção profunda, deparo-me com a fragilidade e a inconstância da minha e da vida alheia. Se não posso decidir sobre desejos alheios, melhor dispor sobre como pretendo ir embora, quando a hora chegar

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