Faltavam cinco jogos, a temporada se desenhava para mais uma final entre Franca Basquete e Flamengo. A equipe francana havia derrotado o time carioca em janeiro, na disputa da Copa Super 8, em plena Arena Carioca 1. Por isso, para muitos torcedores, existia a esperança da conquista do tão sonhado NBB. O sonho foi interrompido pela pandemia e a torcida ficou no "gostinho" até a próxima temporada.
No entanto, os contratos foram se encerrando, jogadores saíram e grandes estrelas reforçaram os rivais, como o pivô Rafael Hettsheimer, que foi para o Flamengo. Outro nome importante, o ala David Jackson, foi para o Minas Basquete, outro rival.
Para repor as perdas, vieram os alas André Góes e Danilo Fuzaro, ambos destaques do último NBB pelo Mogi das Cruzes. Lucas Dias teve seu contrato renovado. Para complementar o elenco, a aposta fica com os jovens atletas da base.
Com todas essas perdas e poucas movimentações, mensagens como: “para o NBB, é preciso de mais gente” ou “até agora está pouco” passaram a cercar as redes sociais do clube. A manutenção do elenco passou a ser cobrada pela torcida, que viu outros nomes como Jimmy, Parodi e Cipolini saindo. Além disso, um grande corte de 40% do orçamento foi feito.
Cortes


Para explicar esse novo momento do Sesi Franca Basquete, em entrevista ao portal GCN, o vice-presidente do clube, Luís Prior (foto acima), analisou os efeitos da pandemia. "Agora, com essa crise, para nós a redução é maior do que para os outros times. Se pudéssemos reduzir como o Flamengo, que cortou só 25%, nós teríamos mantido o time. Mas não, tivemos que reduzir 40%", explica.
"Aí o jogador não vai aceitar. E ele está no direito dele, porque proposta nós fizemos para todos – tirando Cipolini, Jimmy e Schattmann que já estavam fora por decisão da comissão técnica. Independente de pandemia ou não, viriam substituto para eles. Isso já decidido em fevereiro, por diretoria e comissão técnica. Mas tivemos muito cuidado para não divulgar nada, já que estávamos no meio da temporada. Após isso, veio a pandemia. Aí já veio o corte”, completou.
Parceria com Sesi e Magazine Luiza


Uma das grandes dúvidas do torcedor do Franca Basquete era em relação aos patrocinadores Magazine Luiza e Sesi-SP, presidido por Paulo Skaf (foto acima). Ambos têm grande poder de investimento, mas o segundo foi fortemente afetada pela pandemia e cortou vários programas. A parceria com o Franca, no entanto, foi mantida.
“Primeiro já estávamos apalavrados com Sesi e Magazine. Só que nós não falamos de valor. A nossa parceria com eles não tem valor. Tem tarefa. A folha de pagamento é sua, o resto é meu. O Sesi fica com a folha, toda a estrutura, instalações e treinadores. Agora alimentação, viagem e hospedagem, isso tudo é mantido pelo Franca. Então, vai viajar, somos nós. Vai pagar hotel, viagem e ir pra Argentina, é o Franca. A logística é do Franca Basquete”, explica Prior.
Por conta dessas responsabilidades do clube, Prior reiterou a importância dos sócios-torcedores. Atualmente com 970 sócios, a queda durante os cinco meses de pandemia foi muito grande, caindo pela metade. “Chegamos a ter 1.870 entre janeiro e fevereiro. Aí, no início da crise, em março, caiu para 1.570. Como não puderam assistir àquele jogo contra o Bauru, que foi o último, quem tinha que renovar não renovou. Aí foi diminuindo mês após mês. Hoje, temos em torno de 970. Então, caiu pela metade. E o dinheiro é muito importante, porque ainda estamos pagando as dívidas. Então, por isso que hoje a gente fala do sócio-torcedor", disse.
Dívidas
Como citado pelo vice-presidente, as dívidas ainda existem e giram em torno de R$ 800 mil. “Não devemos nada em banco. Então assim, de empréstimo hoje devemos em torno de R$ 800 mil. Essa é a nossa principal dívida.”
Prior ainda relembra outra dívida, mas que não é considerada, por ser um valor parcelado em diversas vezes e por se tratar de uma prestação de contas em 2003. “A outra dívida é naquela prestação de contas em 2003, onde tivemos que pagar entre R$ 8 mil e R$ 9 mil por mês. Então, tira esse valor todo mês. E tivemos que pagar durante 240 meses. Esse problema vem antes de nós assumirmos. E chegou um momento crítico onde deixamos de pagar, onde perdemos esse parcelamento e precisamos de renegociar. Tínhamos pagado uns 120 meses. Aí perdemos um benefício e temos que pagar agora em 60 meses. Acho que pagamos uns 12. Mas é esse valor todo mês.”
Saídas
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Além de Jimmy, Cipolini e Schattmann, que já não teriam os contratos renovados, três jogadores importantes na última temporada se despediram e reforçaram concorrentes ao título. O primeiro a ser anunciado por outra equipe foi o pivô Rafael Hettsheimer (foto acima). Uma proposta de renovação foi feita ao jogador da seleção, mas não o satisfez e optou pelo Flamengo.
“Sobre o Hettsheimer, a única chateação dele aqui com Franca é nós não termos pagado aquilo que ele queria para continuar aqui. É um direito dele. Então, você pega o Flamengo, com certeza está pagando para ele mais do que oferecemos este ano. Só que deve ser menos do que ele recebia aqui”, afirma Prior.
Já os outros dois, Nano Parodi e David Jackson, foram para o Minas. Ambos recebiam em dólar e, para Prior, no momento da conversão para a moeda nacional, isso pode ter travado a negociação. “Eu tenho comigo que o Parodi, por exemplo, que fechou com o Minas, no início de tudo, o que nós oferecemos para ele era muito próximo do que ele ganhava aqui em reais, só que ele faz a divisão com o dólar. Aí ele percebe que teve uma perda. Aí eu digo, sem medo de errar, que ele fechou com o Minas já num valor que daria para fechar aqui. Mas naquele momento, ele não aceitou. Eu tenho certeza que ele foi para lá ganhando menos do que ganhava aqui.”
Elenco atual


Apesar das saídas e dificuldades nas negociações, três jogadores da última temporada foram mantidos, Lucas Dias, Elinho e Guilherme Hubner. A meta da comissão, então, para nova temporada será combinar essa manutenção com a aquisição de André Góes e Danilo Fuzaro (ambos na foto acima) e os jovens da base. “Temporada passada, tínhamos um plantel com 10 jogadores que se equivaliam e com ótimo nível técnico. Nessa próxima temporada, teremos uma equipe mais enxuta, mesclando jogadores mais experientes com jovens talentosos que vêm subindo da nossa base”, disse Helinho Garcia, técnico do time.
Sobre os reforços que Helinho contará - Góes e Fuzaro -, ambos foram destaques no Mogi. O primeiro retorna para Franca, onde foi campeão sul-americano em 2018, após ter temporada de MVP no rival paulista. “Eu estou muito feliz e motivado por estar voltando para Franca. A decisão foi tomada de maneira fácil e até rápida por saber dos jogadores que continuariam na equipe, por saber das ambições de quem joga em Franca: sempre brigar lá em cima e buscar títulos. Então, isso motiva um jogador”, afirma Góes.
Já Fuzaro, mesmo jovem, foi um dos melhores defensores do último NBB e contribuiu fortemente no lado ofensivo da quadra. O jogador já não vê a hora de vestir o manto francano e ter contato com a torcida. “Sabemos como a cidade ama basquete, e estou muito ansioso para poder estrear com a camisa do Franca. Eu acho que vai ser muito bom. Espero, sim, fazer uma boa temporada e que ela seja a melhor da minha carreira. Darei tudo para ajudar a equipe. Precisamos ir vendo como as coisas vão se encaixando, mas a expectativa é grande.”
Na visão do técnico Helinho, o ala pode ter uma grande temporada. “Fuzaro é um jogador atlético, disciplinado e que vem crescendo a cada temporada. Essas são características que nosso torcedor gosta muito."
Aposta na base


Para fechar o elenco, a aposta da diretoria e da comissão fica com a base. Nomes como Márcio Santos, Adyel Borges e Guilherme Abreu (foto acima) devem receber mais minutos em quadra. “Não adianta eu ter base para falar que o jogador está na seleção de base, que é titular, mas no nosso time nunca joga. Existe um caso à parte que é o Didi, mas ele é fora de série. Mas os demais têm muito talento, só que precisam ter espaço. Então, se tivermos um time novamente com oito adultos, como é que a base vai jogar?”, questiona Luís Prior.
O dirigente enxerga no Campeonato Paulista a oportunidade para os garotos se firmarem. “Não existe oportunidade melhor como a do Campeonato Paulista, neste momento de pandemia, para darmos uma oportunidade para base. E é isso que vamos fazer. Isso é fundamental e é o nosso principal slogan.”
O técnico Helinho parece empolgado com a aposta na base e acredita no sucesso. “Os jovens que estão subindo vêm com muita energia e cientes que terão total apoio por parte de todos nós para evoluírem ao máximo. O foco da temporada está muito no lançamento desses jovens atletas.”
Uma das grandes expectativas entre os jovens é o pivô Márcio, de 17 anos. O garoto, durante a última temporada, pôde aprender com um garrafão estrelado. E um dos seus mestres, Rafael Hettsheimer, aposta no garoto.
“O Márcio é um garoto que evoluiu muito, trabalhador e dedicado, sempre querendo melhorar. Mesmo com o pouco tempo que estivemos juntos, ele já me mostrou que é um garoto promissor e com muito talento. Nesses dois anos, eu pude perceber que ele está pronto para vir com tudo”, afirmou Hett, em entrevista ao NBB.
Lucas Dias

Já há dois anos na equipe, Lucas Dias (foto acima) é um dos jogadores mais queridos pela torcida e sua renovação foi bastante comemorada nas redes sociais. O jogador, ainda com 25 anos, teve grande contribuição nas últimas duas campanhas do NBB e nos títulos paulistas e caminha para ser a estrela do próximo ano.
Para Lucas, o contato com a torcida é uma das coisas que o faz se sentir em casa e ter vontade de evoluir. "É uma coisa gostosa. Eu me sinto realmente em casa, porque desde que cheguei aqui nesses dois anos, a cada vez, as pessoas me tratavam melhor. Então, esse contato que eu tenho com eles é muito legal. É algo único", afirmou o jogador.
"Uma das coisas que eu sempre sonhei na minha vida foi em ser um espelho para as pessoas e, quando vejo as crianças me tratando bem, indo me ver jogar e sendo uma referência, eu fico bastante feliz. Ver as pessoas falando que sou ídolo é muito bom. É um sentimento que não dá para explicar, é único. Mas podem ter certeza que fico muito feliz."
Rivais

Em conjunto a tudo isso, equipes que antes pareciam estar em escalões inferiores, como Bauru e Minas, se reforçaram fortemente e Franca, com o segundo maior orçamento da liga, deixou de ser colocado como favorito.
O grande rival da equipe francana, o Bauru, fechou o retorno do ídolo Alex, além do armador Alexey e o pivô Dikembe (foto acima), destaque jovem do último NBB.
Já o Minas vem mais forte ainda. O time que já contava com o cestinha Leandrinho Barbosa, perdeu Alex, mas repôs com David Jackson e Nano Parodi, e adquiriu mais força ainda com Nesbitt e JP Batista.
Apesar desses investimentos dos rivais, Prior colocou apenas Flamengo à frente do Franca. "Em relação aos times, tirando o Flamengo que está montando uma equipe fora do normal, nenhum nos preocupa. Eles estão dando a cara sim para contratações, como o Minas e Bauru. Já o Unifacisa deve manter o mesmo time, talvez subindo um degrau, mas não é time para ser campeão. É um time mediano. Em relação ao Mogi, eu tenho dúvida, porque estão em bastante dificuldade. Então é o momento de não fazer loucura. Não digo que os outros façam, mas temos que manter o pé no chão."
Já o técnico Helinho Garcia vê uma diferença e descarta o favoritismo de Franca. “Nesta temporada, não vejo nossa equipe favorita como essas citadas. O nosso foco e alinhamento com nosso parceiro Sesi e nosso patrocinador Magalu são nos adaptarmos ao novo momento, lançando jogadores jovens e fazer sempre o melhor jogando com ‘a cara de Franca’.”
Prior relembra ainda que é comum times se reforçarem por conta da necessidade de títulos, trazendo na memória algo que aconteceu com Franca. “Eu sempre preciso voltar a dois anos atrás, quando nós contratamos esses jogadores como Hettsheimer, Lucas Dias, Elinho, David Jackson. Nós contratamos a peso de ouro. Precisávamos quebrar esse estigma de não ganhar título e tudo mais. Tanto é que eles aconteceram nos últimos dois anos. Estamos há cinco anos. Então, tivemos que pagar mais do que normalmente seria pago. Além do que, fizemos contrato de dois anos.”
NBB 2020/21


Com todas essas situações e o novo momento analisado, o portal GCN resolveu buscar a visão de um especialista, para ver até onde Franca deve ir no próximo NBB. A responsabilidade ficou com Ricardo Bulgarelli, comentarista dos canais ESPN.
Para ele, a camisa de Franca deve pesar e, por isso, não tem como desprezar a equipe. “Pode ser que leve um tempo para o entrosamento acontecer. Isso é natural. Nas outras equipes a mesma coisa, principalmente Bauru que está se reforçando bastante. Então, Franca sempre vai entrar como um dos favoritos ao título, independente do plantel e da competição.”
Além disso, para ele, a pressão da torcida por um título nacional será muito grande e pode ajudar Franca. “A gente sabe que o torcedor francano é exigente. Joga junto com o time, mas cobra demais, principalmente os resultados. E a cidade está carente de um título nacional. O título internacional já veio, com a Liga Sul-americana. Mas o torcedor, a gente percebe que a paciência parece estar se esgotando por conta da falta de um título nacional. Mas não dá para descartar Franca. Sem dúvida nenhuma, é uma das três ou quatro potências do basquetebol brasileiro em mais uma temporada que se iniciará em breve”, finalizou Bulga.
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