CRIATIVIDADE

Empresários criam novos modelos para seus negócios durante a pandemia


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Gustavo Miranda e Flavia Junqueira: aposta em novos produtos foi a saída para manter contato com os alunos
Gustavo Miranda e Flavia Junqueira: aposta em novos produtos foi a saída para manter contato com os alunos
A quarentena, que em Franca completou na última semana cinco meses desde seu início, trouxe consigo impactos profundos para todos os setores da economia. Mas para alguns, que não sofreram apenas restrições, mas o quase impedimento total de funcionamento tal qual acontecia até março, os desafios foram ainda maiores. Salões de festa, cabeleireiros, academias, cursos múltiplos, todos tiveram suas atividades duramente afetadas. Muitos migraram para o delivery ou passaram a fazer atendimento on-line. Mas para alguns, essas alternativas não se mostraram suficientes para manter seus negócios viáveis. A alternativa foi criar novas formas de atuação, mostrando que com criatividade e disposição para se reinventar dá para manter a empresa "viva", apesar, obviamente, das muitas dificuldades e dos imensos desafios.
 
Um exemplo desta inovação é a Escola Francana de Gastronomia, criada em 2017 pelos professores Gustavo Miranda e Flávia Junqueira para dar cursos presenciais e práticos para pequenas turmas. A dupla tinha entre seus produtos desde cursos rápidos de uma noite para cozinheiros amadores que queriam impressionar em casa até o curso de chef profissional, com duração de um ano. Com a pandemia, as aulas pararam completamente. Num primeiro momento, eles até tiveram um aumento na consultoria para restaurantes, pois muitos precisavam se adequar ao novo momento. Mas apesar da ampliação de consultorias, o faturamento caiu em 40%.
 
Surgiu então a ideia do Chef-in-box, que é basicamente uma caixa com todos os ingredientes para se fazer um prato mais sofisticado. Vem tudo já pesado, cortado e fracionado, em porções para 2 ou 4 pessoas, acompanhado da receita completa com passo a passo e dicas. A cada semana, há um cardápio diferente, variando entre massas, carnes e risotos como prato principal. Hoje o produto é responsável por metade do faturamento da empresa.
 
Karina Aguilar, 45, farmacêutica, mora em Pedregulho e não conhecia a escola. Viu a postagem de uma amiga sobre o Cheff in Box e resolveu experimentar. Gostou tanto que já comprou vários kits. Para ela, nem a distância é problema. Karina encomenda e pede para entregar na casa de parentes, em Franca, que levam para ela. “São pratos fáceis de preparar e num momento que não estamos saindo de casa, fica uma atividade gostosa de fazer, ouvindo uma música, conversando, tomando um vinho. Mesmo quando terminar a pandemia o hábito vai ficar aqui em casa. Gosto de cozinhar e com tudo pré-preparado, como vem na box, fica melhor ainda”
 
Outro produto que amadureceu durante a pandemia foram as aulas on-line. Primeiro começaram com lives para manter contato com os alunos, mas após algumas Gustavo e Flávia viram que a interação não era funcional e o retorno por mensagens não bastava. A alternativa encontrada foi fazer reuniões por vídeo conferência. Pelo Zoom, eles marcam a aula, abrem as câmeras deles e dos alunos e conferem quantidades, texturas e tiram dúvidas enquanto vêem o que os alunos estão fazendo em tempo real.
 
Gustavo gostou muito do modelo. “Tínhamos feito algumas lives ensinando pratos, mas a falta de contato com os alunos nos incomodava. Agora achamos um meio que dá para dar a atenção que sempre foi o diferencial da nossa escola”. Sumaya Florence é uma das alunas que fez aulas online. Ela já arriscava seus próprios risotos, mas achou que faltava técnica. Depois de um breve contato, viu que se interessaria por outras aulas. “Achei fantástico, esclareceram todas as nossas dúvidas, deram dicas e sugestões. Foi muito legal”, garante. 
 
Flávia diz que os novos produtos farão parte do portfólio permanente da escola, mesmo quando voltarem as aulas presenciais “No pós-pandemia, quando voltarmos às aulas presenciais, os serviços de Consultoria, Chef in Box e Aulas Ao Vivo deverão ser mantidos. Entendemos também que mudanças poderão ser necessárias para nos adequarmos ao 'novo normal', mas sempre com o intuito de entregar uma excelente experiência de gastronomia aos nossos alunos e amigos”, afirma.
 
Outro atingido em cheio pela pandemia foi a Le Chef Eventos, empresa que existe há 13 anos. Além de alugar salões, tem também um buffet que atende casamentos, formaturas, confraternizações. A empresa conta com 20 funcionários fixos e 150 temporários. Com o cancelamento de todos os eventos, a saída foi criar na área externa do espaço (onde era um estacionamento) uma estrutura para celebrações ao ar livre. Passaram a realizar eventos em que as pessoas assistiam tudo de dentro de seus próprios carros. Primeiro foi o cinema, depois teve teatro, stand up, circo, e até shows com bandas. 
 
Para Saulo Pedro, 34, diretor da empresa, além de garantir o funcionamento e manter o quadro de funcionários ativos (não foi demitido nenhum fixo e grande parte dos eventuais estão sendo chamados), estes eventos são também uma opção de lazer para pessoas confinadas em suas casas “Ao mesmo tempo criamos uma solução financeira para a empresa e trouxemos pra Franca uma coisa diferente, nova, onde as pessoas podem sair de casa e se distrair num momento difícil, ter um refúgio para sair com segurança. Foi assim que começou o Cine Drive”, explica.
 
Segundo o diretor, a melhor resposta do público foi com o stand up. “O ponto alto foram os stand ups. Foi um sucesso. Transmitimos em todos os eventos o sinal de áudio por um canal de FM. Assim, em cada carro, as pessoas regulavam de acordo com a sua preferência. Todos ouviam bem, da primeira fila ao final, sem incomodar os vizinhos”. 
 
Recentemente, voltaram um pouco às suas origens e fizeram um casamento em que os convidados estavam todos dentro de seus carros. “Semana passada realizamos o primeiro casamento drive in da região. Foi lindo, muito bom fazer parte da história de Franca e em especial da vida deste casal”, disse Saulo.
 
A responsabilidade social da empresa é outra preocupação de Saulo. “Nos sensibilizamos com o pessoal do circo. Há muitos circos pequenos que ficam pela região. Vimos casos em que estavam já vendendo aparelhos de picadeiro. Fechamos as atividades lucrativas e trabalhamos uma semana inteira exclusivamente para circos, onde arrecadamos duas toneladas de alimentos e 8.000 reais que foram distribuídos para ajudar estas pessoas”, explica. Além desta ação específica, em todos os ingressos é obrigatória a doação de alimentos. Os alimentos arrecadados são preparados na cozinha do buffet e as refeições prontas são distribuídas em bairros carentes de Franca. Cerca de três mil refeições neste modelo já foram distribuídas.

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