TRISTEZA

Sem velórios, sepultamento de vítimas do coronavírus reforça o drama da pandemia


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Maria de Oliveira: morte aos 86 anos de covid
Maria de Oliveira: morte aos 86 anos de covid

Despedir-se de um ente querido é sempre doloroso. As medidas de restrição impostas pelo combate à covid-19 fizeram com que esse momento aumentasse o vazio em milhares de famílias no país.

Desde o dia 12 de abril, quando foi registrada a primeira morte pelo coronavírus em Franca, os protocolos de higiene e prevenção rígidos se tornaram evidentes – e dolorosos – para muita gente. As medidas não só implicaram na mudança da rotina de trabalho de muitos funcionários das funerárias, dos velórios e dos cemitérios, como também na vida de pessoas que perderam alguém para a doença e não puderam ter qualquer contato físico durante a despedida.

Patrícia Saionara perdeu seu pai no mês passado para a covid-19. Luís Cláudio, de 51 anos, não pôde ser velado e nem enterrado em situações normais. “Esperamos o corpo chegar no cemitério e acompanhamos tudo do outro lado da rua. Tiraram da urna, enterraram e só depois do sinal pudemos nos aproximar. Só vimos a terra. Mal vimos o caixão, sequer o rostinho dele”, explica.

O momento é particularmente difícil para os familiares, que esperam ao menos uma despedida digna. “Fizemos de tudo para que pelo menos minha mãe pudesse ver meu pai, mesmo que através de algum vidro ou usando a roupa necessária. Mas não deixaram. O protocolo é muito rigoroso”, disse a filha. “Não pudemos nem segurar o caixão para sentir o peso, sabe? As pessoas só vão ter consciência quando acontecer com a própria família. É muito triste”.

A avó de Maria Beatriz Andrade também faleceu na última quarta-feira, dia 12, por conta das complicações da covid-19. Ela conta que a família tomou todos os cuidados para proteger Maria de Oliveira Andrade, de 86 anos, mas que o diagnóstico da doença veio no início deste mês. “Como ela estava com suspeita de covid, ninguém podia dormir com ela ou visita-la. Fizemos de tudo para protege-la do vírus. Fazia cinco meses que não a abraçávamos”, contou a neta.

Assim como os outros casos, Maria Beatriz disse que o processo de enterro foi muito rápido. Às 6 horas da manhã de quarta-feira a família foi avisada do falecimento. Às 10 horas ela já estava enterrada. “Perder alguém em uma situação assim é indescritível. Não tivemos a oportunidade de nos despedir, nem de ver ela por uma última vez. Além disso, não pudemos receber os abraços e consolo de tantas pessoas que nos amam e amam ela, que com certeza nos fariam sentir acolhidos”.

O procedimento é realizado da mesma forma em todas as funerárias da cidade. Assim que a papelada é finalizada, as empresas recebem os corpos já devidamente envelopados pelo hospital responsável e só realocam para as urnas. Segundo Carlos Alberto de Lima, gerente da Funerária Tedesco, desde o início da pandemia tudo é feito da maneira mais rápida possível, sem velório, sem preparação (no corpo) e com os funcionários utilizando todo o equipamento de proteção individual.

Na maioria dos casos, o caminho da funerária até o cemitério não pode ser acompanhado pelos amigos e familiares, o tradicional cortejo. Com hora marcada, apenas a família espera no local do sepultamento a chegada da urna, que é escoltada por guardas para que não haja nenhum tipo de aproximação. No momento do sepultamento, não deve haver aglomerações. É aconselhado que quem presencia mantenha distanciamento e observe de longe.

Os velórios de quem não apresentou a doença ainda estão ocorrendo, mas com algumas exigências. Existe uma quantidade limitada a oito pessoas por vez nas salas de velório e a duração pode ser de no máximo quatro horas. É recomendado que quem participe se atente também ao distanciamento social.

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