TRAGÉDIA

País chega a 100 mil mortes por covid sem resposta para evitar uma tragédia maior


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Bolsonaro visita obras no sábado em São Vicente: parabéns ao Palmeiras e nenhum pronunciamento sobre as vítimas da covid
Bolsonaro visita obras no sábado em São Vicente: parabéns ao Palmeiras e nenhum pronunciamento sobre as vítimas da covid

Em menos de seis meses, o Brasil atingiu a marca de 100 mil mortos por coronavírus. O País alcançou no sábado à tarde, 8, um total de 100.240 mortes. Se o País fizesse 1 minuto de silêncio em homenagem a cada vítima, teria de passar 70 dias calado. O número impressiona. É o equivalente a cair quase cinco aviões A320 lotados todos os dias, contando do primeiro óbito, em março, até hoje. Ou à capacidade de público de um estádio e meio do Morumbi, o maior de São Paulo. O presidente Jair Bolsonaro, que tem mantido desde o início uma postura negacionista com relação à pandemia, manteve o mesmo comportamento diante da trágica marca. Diferente dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Supremo Tribunal Federal, Dias Tófolli, que decretaram luto oficial, Bolsonaro nada fez. Postou, no sábado, parabéns ao Palmeiras pelo título Paulista, mas não fez qualquer pronunciamento pessoal sobre os 100 mil mortos nem dirigiu nenhuma mensagem às famílias das vítimas. Limitou-se a responder, em tom de provocação, um post feito ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro.


Com novos casos se alastrando pelo interior, duas a cada três cidades brasileiras já perderam alguém para a covid-19. Médicos e cientistas de diferentes regiões do País afirmam que, para conter o avanço da doença, é preciso que as ações tenham como base um tripé: identificação e monitoramento precoce dos casos; etiqueta respiratória e cuidados pessoais; isolamento social, ou até lockdown, principalmente nos locais com alta transmissão.

Enquanto não houver vacina ou remédio com eficácia cientificamente comprovada, os pesquisadores alertam que a única saída é tentar reduzir a propagação da covid-19. Coautor do livro Viroses Emergentes no Brasil, o médico infectologista da Unicamp Rodrigo Angerami demonstra que, em tese, a lógica é simples. "Diminuindo a taxa de transmissão, haverá menor número de casos, menor número de casos potencialmente graves e, consequentemente, menor número absoluto de novos óbitos."

Até o momento, o País atingiu o patamar de 3 milhões de casos confirmados. Para minimizar o contágio, o pesquisador cita a importância da proteção individual, como uso rotineiro de máscara e a higienização constante das mãos, além do distanciamento social. É fundamental fortalecer as ações com informações corretas, afirma. As medidas de prevenção servem não apenas para proteção individual, mas para interromper cadeias de transmissão comunitária.

Segundo Angerami, o combate à pandemia também deve focar em baixar a letalidade da doença. Esse índice varia de acordo com o Estado, chegando a 4% em São Paulo e 8% no Rio. Para isso, é imprescindível que todo paciente seja identificado e investigado laboratorialmente de modo precoce, seja avaliado e monitorado clinicamente e, se necessário, encaminhado para serviços hospitalares.


Plano federal
De acordo com os pesquisadores, os sistemas de saúde e vigilância do País já tinham capacidade e expertise para impedir o avanço desenfreado da pandemia, mas os embates políticos atrapalharam. Outro passo, agora, deve ser implementar um plano nacional de enfrentamento ao coronavírus para corrigir o que, na visão dos pesquisadores, seria a principal falha do Brasil até aqui: o vácuo de liderança no combate à pandemia.

Começamos bem, iniciamos a quarentena no momento certo, antes de termos muitos casos, mas tivemos um presidente da República jogando contra os Estados, diz o professor de epidemiologia Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP. Em determinado momento, os governadores se sentiram pressionados e iniciaram a reabertura. Se tivéssemos feito um lockdown sério, mesmo que fosse por um período curto, de 10 ou 15 dias, teríamos tido uma redução expressiva de casos, afirma.

Coordenador do núcleo de epidemiologia e vigilância em saúde da Fiocruz Brasília, o médico Claudio Maierovitch também avalia que a falta de coordenação na área federal atrapalhou. Cinco meses depois, continuamos sem plano e sem liderança. Se tivéssemos isso, poderíamos ter bem definidas as medidas recomendáveis em cada estágio da pandemia, o que é importante se pensarmos que há situações diferentes de transmissão de acordo com a região do País. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

Absurdo

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se manifestou pelas redes sociais classificando como "absurda" a marca de 100 mil mortos por coronavírus no Brasil. "Estamos convivendo diariamente com a pandemia, mas não podemos ficar anestesiados e tratar com naturalidade esses números. Cada vida é única e importa", escreveu Maia no Twitter. O Congresso Nacional decretou luto oficial de quatro dias após o País registrar 100 mil óbitos pela covid-19.

Maia usou as redes sociais para pontuar que o número de mortes havia sido previsto durante a gestão do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, filiado ao DEM. Mandetta foi demitido em abril e, após a passagem do ex-ministro Nelson Teich, a pasta está sem titular.

 

Luto no Supremo

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, decretou luto oficial de três dias na Corte em homenagem aos 100 mil mortos pela covid-19 no Brasil. Com o luto oficial, o Supremo não vai realizar "celebrações, comemorações ou festividades", de acordo com a decisão de Toffoli. O presidente do STF divulgou uma mensagem de solidariedade às famílias daqueles que perderam a vida por causa do novo coronavírus. "Os reflexos e as dores oriundas da pandemia são inúmeros e imensuráveis. Mas a maior de todas as dores é, sem dúvida, a perda de alguém que amamos. Isso é algo que jamais pode ser restituído ou compensado", afirmou Dias Toffoli na mensagem.


Com novos casos se alastrando pelo interior, duas a cada três cidades brasileiras já perderam alguém para a covid-19. Toffoli classificou a pandemia como a maior da humanidade e pontuou que o País "jamais" viveu uma tragédia com essa dimensão.

Na mensagem, o presidente da Corte declarou que "a esperança, o espírito de fé e a Ciência sejam nossos guias para que possamos encontrar meios de superação" e destacou o exercício de "solidariedade e o espírito fraternal" diante das perdas humanas

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