DIVERGÊNCIAS

Comitê rechaça ideia de Gilson sobre distribuição em massa de coquetel: 'Invenção que tem risco'


| Tempo de leitura: 5 min
No último dia 14, o Comitê Municipal de Enfrentamento ao Coronavírus em Franca recebeu a “encomenda” do prefeito Gilson de Souza (DEM) de criação de um protocolo de tratamento precoce de pacientes do novo coronavírus, com cloroquina, e de prevenção, com ivermectina, “idêntico ou próximo daqueles que são adotados no Brasil”. A ideia de distribuição “em saquinhos” por “drive thru” do segundo medicamento foi rechaçada por médicos que compõem o grupo.
 
O GCN teve acesso à gravação da reunião do Comitê, feita por videoconferência na semana passada. A ideia de Gilson, segundo o assessor de políticas públicas da Secretaria de Saúde, Luiz Carlos Vergara, é “copiar” o que já vem sendo feito em cidades como Porto Feliz (SP) e Itajaí (SC). 
 
Antes, Gilson havia pedido ao médico da Vigilância Epidemiológica, Homero Rosa Júnior, um estudo para criação de um protocolo para prescrição dos medicamentos. “O prefeito Gilson de Souza, na última quinta-feira, preocupado e, ao mesmo tempo, atento às notícias de que as cidades estão criando seus protocolos em relação à prescrição de medicamentos, ele até fez uma solicitação ao Dr. Homero...”, disse Vergara, durante a reunião.
 
O assessor afirmou que Gilson e a Secretaria de Saúde respeitariam a posição dos profissionais da Vigilância. “Mas é uma vontade do prefeito buscar essa prescrição e esse protocolo o mais breve possível”, pressionou, diretamente.
 
Na última terça-feira, uma semana depois, em sessão da Câmara de Vereadores, Vergara deu a entender que, como Homero Rosa era contra a criação de um protocolo, a Prefeitura procurou profissionais dispostos a discuti-lo. “(...) todo mundo sabe que o Dr. Homero é contra. Ele já disse lá no Comitê: ‘Sou contra’. (...) Aí, nós fomos buscar especialistas que estão dispostos a discutir, debater e respeitar as opiniões divergentes”, disse ele, na Câmara, afirmando que o protocolo de Franca já estava rascunhado, mas ainda não havia sido colocado em prática.
 
‘Formalidade populista’
Em Porto Feliz (SP), a Prefeitura distribui um kit de medicamentos com hidroxicloroquina e azitromicina para os pacientes com sintomas leves de Covid-19. Em Itajaí (SC), a ivermectina foi distribuída em um centro de eventos para a população, como forma de suposta prevenção da doença. 
“Eles fizeram um esquema populacional, estádio de futebol, que a pessoa vai lá, só fala ‘oi’ para o médico... O médico só carimba, porque a receita já vem pronta! É só uma mera formalidade populista da pessoa ir lá buscar a medicação para fazer a profilaxia”, disse o médico Sélvio Machado Simon, da Secretaria Municipal de Saúde, na videoconferência.
 
Os membros do Comitê destacaram que ambas as cidades, usadas como exemplo por Vergara para tentar impor a vontade de Gilson, possuem proporcionalmente mais mortes por coronavírus que Franca.
 
De acordo com o Painel Covid, do Ministério da Saúde, nesta quinta-feira, 23, Franca tem 6 mortes por 100 mil habitantes. Porto Feliz registrou quase três vezes mais óbitos, 17 por 100 mil; e em Itajaí, o coronavírus mata seis vezes mais que aqui. Lá são 36 mortes por 100 mil habitantes.
 
Relação médico-paciente
Profissionais do Comitê concordaram em um ponto: a relação médico-paciente é que deve prevalecer na prescrição de medicamentos. “Estamos engalfinhados por narrativas de toda espécie, deste e daquele lado. Quero sair da seara das narrativas, para entrar no lado ético da questão. A resolução está na dupla médico-paciente”, defendeu o médico Raul Hellu, também da Secretaria de Saúde.
 
Segundo ele, o médico deve explicar ao paciente os prós e contras de utilizar determinado medicamento, sem apavorá-lo nem deixá-lo sem opção caso deseja fazer uso. “Não pode ser por protocolo, para todo mundo, com drive trhu. Tem que ser com avaliação médica, com prescrição médica.”
 
O Ministério da Saúde e o Conselho Federal de Medicina vão na mesma linha e determinam que o tratamento precoce de pacientes do Covid com a cloroquina pode ser prescrito apenas por médicos e com consentimento do paciente ou responsável.
 
Homero Rosa concorda. “Uso de medicação em larga escala, sem respaldo científico forte, é muito temeroso. Agora, individualmente, com toda essa conversa que o Dr. Raul falou, com o paciente ciente que o quadro clínico dele permite receber tal medicação fornecida por alguma Prefeitura, isso é perfeitamente possível de ser feito. Tem respaldo para isso.”
 
“Não é água benta”
Vários vídeos nas redes sociais defendem o uso do remédio distribuído em Itajaí como forma de prevenção do Covid, afirmando que ele não representa riscos à saúde. Um dos vídeos foi citado por Vergara na reunião do Comitê, dando a entender que estava se baseando também em opiniões de internet para definir uma política pública de saúde.
 
Mas os especialistas do Comitê alertaram para os riscos da ivermectina. “Não é água benta, não. Quem é hepatopata (doente do fígado) corre risco, sim”, disse o médico Sélvio Simon. O perigo é desenvolver hepatite medicamentosa. “Do ponto de vista acadêmico-científico, essa profilaxia não existe. Isso é uma invenção momentânea que tem os riscos. Eu acredito que isso é temerário”, continuou Simon. “Não há como fazer profilaxia sem comprovação científica no serviço público, com verba pública. Eu fico preocupado realmente. Isso depois pode voltar contra quem prescreveu e contra quem consumiu”, finalizou.
 
Caso Gilson queira levar adiante seu plano de distribuição com dinheiro da Prefeitura de medicamentos sem comprovação científica de que são eficazes contra o coronavírus – e que podem prejudicar ainda mais a saúde de quem tomá-los – ele terá de ignorar, mais uma vez, a opinião do Comitê técnico de combate ao vírus em Franca.
 
Na primeira vez que peitou os especialistas e liberou as igrejas para realizar cultos e missas com a presença de fiéis, o prefeito foi obrigado pela Justiça a voltar atrás.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários