O médico infectologista do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, Valdes Roberto Bollela, concedeu entrevista nesta quarta-feira, 22, ao programa Show da Manhã da rádio Difusora, apresentado por Valdes Rodrigues. O chefe da área de infectologia do hospital classificou como "irresponsabilidade" a ação de algumas prefeituras que adotaram protocolos para o uso dos medicamentos Ivermectina e Hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com covid-19. A medida foi anunciada recentemente pela prefeitura de Franca.
“Eu não prescrevo. A Ivermectina é hoje o que a Cloroquina foi há três meses atrás. Em algum momento, alguns relatos, alguns estudos iniciais sugeriram que a Cloroquina poderia combater o vírus. In vitro, no laboratório, isso parece ser verdade, mas para ter certeza tem que testar nas pessoas em estudos bem feitos. No início todo mundo usou, mas depois os estudos foram mostrando que a Cloroquina não protege. Ela aumenta o risco de complicações de pacientes que estão na UTI, aumentando a mortalidade. Existem estudos com a Ivermectina, mas esses estudos não foram concluídos", disse o médico.
Bollela é direto sobre como avalia a ação de quem aposta nestes medicamentos. "Na minha opinião é uma irresponsabilidade criar protocolos com medicamentos que não têm embasamentos científicos. O problema no país é que existem muitas divergências. O Ministério da Saúde é um desgoverno só. Outros órgãos regulatórios de outros países não estão recomendando Hidroxicloroquina e nada a respeito de Ivermectina. Claro que tem o médico, e o Conselho Federal diz que o médico tem autonomia para prescrever. Mas ele tem que conversar com o paciente e ambos estarem cientes de que não há evidência de que o medicamento protege”.
O infectologista alertou para a facilidade de contagio, mas aproveitou também para tranquilizar a população sobre a doença. “Na maioria das vezes as pessoas vão se curar (sozinhas). Não é achar que só porque pegou o vírus vai morrer. Mais de 90% vão evoluir para a cura e ficar bem. E mesmo quando a doença fica no estágio mais grave ainda tem tratamento", explica. "Mas não é com Cloroquina, não é Ivermectina. Tem medicamentos para pacientes internados que diminuem as chances da doença ficar grave, mas tem que ser por médicos que entendam o que estão fazendo. Caso contrário vai fazer besteira. Mesmo naqueles 5% gravíssimos a gente tem condições de resgata-los e salva-los. Não pode é ficar atirando para todos os lados, fazer coisas que não têm evidências, pondo em risco as pessoas”.
Busca por vacina
O infectologista Valdes Roberto Bolela também falou sobre a pesquisa incessante na busca por uma vacina contra o Covid-19. “Há duas vacinas em fases avançadas de testes no mundo, uma desenvolvida na Inglaterra e outra na China. Uma será testada em Ribeirão Preto, pelo Butantã, entre as pessoas que estão na linha de frente, profissionais de saúde do combate ao coronavírus. (...) Quem for vacinado será seguido por alguns anos para ver quanto tempo dura. Não dá para desenvolver uma vacina e sair vacinando todo mundo", disse o médico. "Esses candidatos correm algum risco como tudo na área de saúde. Se ela fizer mais mal do que bem, você pode lá na frente descobrir que ao invés de ajudar a população, causou foi dano. É uma responsabilidade enorme dos pesquisadores e profissionais da saúde. Vale também para esse monte de remédio que dizem que servem para tratar, prevenir o Covid, mas que não têm comprovação. É um risco”.
Vírus no ambiente
Sobre o tempo de sobrevivência do vírus no ambiente, o médico do HC disse que 'é difícil fixar um parâmetro. “Depende de vários fatores, temperatura, se o tempo tá frio ele vai durar mais, porque é um vírus com partículas bem simplesinhas e elas dependem de outras células para ficar viável. Sozinho ele não consegue sobreviver. Quando é expelido em uma superfície metálica ele dura mais do que um dia. Se for em uma superfície porosa ele seca vai ficar inativado. Se ficar no sol, ele perde a viabilidade mais rapidamente”.
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