A Prefeitura de Franca anunciou na última segunda-feira, 21, que passaria a recomendar o tratamento precoce dos pacientes de Covid-19 na cidade com os medicamentos ivermectina e cloroquina. A medida ganhou intensa repercussão nas redes sociais. Nesta terça-feira, 21, o coordenador de Saúde, Luiz Carlos Vergara, baixou o tom e disse que é apenas um estudo. “Ele está rascunhado, mas não está valendo.”
Apesar de o protocolo de tratamento precoce de pacientes do Covid-19 ainda não estar implantado em Franca, a intenção seria ministrar ivermectina, um vermífugo, a pessoas com suspeita do coronavírus e hidroxicloroquina aos pacientes com confirmação de infecção pelo vírus. A medida seria tomada por determinação do prefeito Gilson de Souza (DEM), mesmo com entidades médicas desestimulando o uso desses medicamentos. Em entrevista ao Jornal da Clube, da TV Bandeirantes, na última segunda-feira, 20, o coordenador municipal de Saúde, Luiz Carlos Vergara, disse que o protocolo “nasceu de uma vontade do prefeito Gilson de Souza (DEM)”.
“Neste momento, nós temos um protocolo rascunhado e acredito que, até quinta-feira, ele será colocado em atividade. Os próprios médicos que estão atuando na linha de frente, no pronto-socorro de referência, já estão prescrevendo”, afirmou ao telejornal.
Menos de 24h depois, na manhã de terça-feira, na Câmara, Vergara ajustou a versão da prefeitura e disse que recebeu uma mensagem sobre um protocolo que teria sido adotado pelo Ministério da Saúde. “Hoje, às 6 horas, recebi uma mensagem: ‘Vergara, acabou a polêmica, o Governo Federal acabou de publicar o seu protocolo, a sua recomendação, o nome que quiserem dar, autorizando o uso da cloroquina, aliada a outros medicamentos’.
Mais tarde, no programa Hora da Verdade, da Difusora, ele disse que a discussão sobre a criação de um protocolo próprio em Franca estava encerrada por conta da “criação” do plano pelo Governo Federal. Mas as recomendações para tratamento precoce de pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) com Covid-19 foi publicado pelo Ministério da Saúde no dia 20 de maio, portanto há mais de dois meses – e tem sido duramente criticado por organizações médicas do Brasil e do mundo.
O documento, denominado “Orientações do Ministério da Saúde para manuseio medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da Covid-19”, prevê o tratamento de pacientes com sinais e sintomas leves com Difosfato de Cloroquina combinado com Azitromicina ou com Sulfato de Hidroxicloroquina também com Azitromicina. Não existem, porém, quaisquer recomendações do Ministério da Saúde sobre o uso da ivermectina.
Polêmica na própria Prefeitura
O estudo de criação de um protocolo de tratamento precoce de pacientes do Covid-19 em Franca foi encomendado pelo prefeito Gilson de Souza ao médico da Vigilância Epidemiológica Municipal, Homero Rosa Júnior. “O dr. Homero, na última quarta-feira, ele disse o seguinte: ‘Eu estou fazendo o estudo e vou apresentar para vocês a minha proposta’. Mas todo mundo sabe que o Dr. Homero é contra. Ele já disse lá no Comitê: ‘Sou contra’”, admitiu Vergara, na Câmara.
Vergara ironizou a postura. Ainda na Câmara, disse que médicos que são contra estariam prescrevendo os medicamentos a seus familiares. “Aí, nós fomos buscar especialistas que estão dispostos a discutir, debater e respeitar as opiniões divergentes”, disse ele. De acordo com Vergara, outras cidades do país têm adotado esse protocolo de tratamento precoce e viriam obtendo resultados positivos.
O protocolo do Ministério da Saúde observa que “a orientação para a prescrição do medicamento permanece a critério do médico, sendo necessária também a vontade declarada do paciente. No caso de pacientes pediátricos ou incapacitados, é necessário o consentimento dos pais ou responsáveis legais”.
Entidades contrárias
Na última quinta-feira, 17, a Sociedade Brasileira de Infectologia recomendou o abandono da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes do Covid-19. Na nota são citados dois estudos, um feito nos Estados Unidos e Canadá e outro na Espanha, que não encontraram benefícios nos pacientes que receberam o medicamento, reforçando os resultados de pesquisas anteriores.
“É urgente e necessário que os agentes públicos, incluindo municípios, estados e Ministério da Saúde reavaliem suas orientações de tratamento, não gastando dinheiro público em tratamentos que são comprovadamente ineficazes e que podem causar efeitos colaterais”, diz a nota.
Já o Conselho Federal de Medicina afirma que “não há evidências sólidas de que essas drogas (cloroquina e hidroxicloroquina) tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença (Covid-19)”, mas que diante do cenário de pandemia, eles podem ser usados diante critério médico e consentimento do paciente.
A OMS (Organização Mundial de Saúde) reforçou no início deste mês que a hidroxicloroquina é totalmente ineficaz no tratamento dos pacientes do Covid-19.
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