SITUAÇÃO

Artistas francanos lutam para sobreviver em meio à pandemia


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Nesta sexta-feira, 10, o Diário Oficial da União publicou a Medida Provisória (MP) que libera recursos para o setor cultural no Brasil, através da Lei Aldir Blanc. Esta, por sua vez, visa garantir auxílio para artistas de diversas atividades do setor.

 
O recurso prometido que seria distribuído aos artistas de todo o país é referente ao superávit de R$ 3 bilhões do Fundo Nacional de Cultura, existente há 10 anos. Com o sistema parado, esse valor não estava sendo utilizado e, com a MP, a ideia é que o fundo seja repassado neste momento de necessidade.
 
Perguntando como tal recurso nacional chegaria aos artistas de Franca, Anabrisa Tamaso, representante do Conselho Cultural da cidade, explicou. “O valor total será distribuído 50% para os estados e 50% para os municípios. O cálculo será feito com base na população, através de um mapeamento dos artistas da cidade. Nossa previsão é que Franca consiga uma ajuda de R$2,2 milhões”.
 
Contudo, os trâmites não são simples e a cidade precisa se adequar para ser contemplada. “A lei prevê que para receber o recurso, o município deve fazer adequações. Criar um comitê gestor para implementar a lei. Fazer um cadastro oficial para o mapeamento do setor cultural na cidade e criar o Fundo Municipal de Cultura”, explicou Anabrisa.
 
A representante ainda afirma que Franca sai na frente de outras cidades, devido à existência do Conselho de Política Cultural desde 2017. “O conselho já propôs o mapeamento socioeconômico cultural e agora parte para a criação do fundo. Em janeiro, o município através da FEAC, assinou um acordo federativo com o Ministério da Cultura para adesão ao Sistema Nacional de Cultura, que permitirá que o repasse aconteça de forma mais organizada e ágil”.
 
A situação dos artistas desde a quarentena
A lei Aldir Blanc entrará em vigor agora, apenas. Entretanto, a quarentena em Franca está chegando ao seu quarto mês. São quase 16 semanas sem atividades normais para essa parcela da população que depende do público, da plateia e, consequentemente, de aglomerações. 
 
A necessidade de se adaptar e continuar vivendo da arte, varia em cada ramo. Para Jefferson Bismarck, ator e integrante do Ponto de Cultura Espaço Nulo, no momento há poucas alternativas para a categoria. “Estamos em uma luta para entender como fazer arte de forma online. Principalmente o teatro que depende muito do palco, do público e do contato humano. Filmar um teatro, muda a característica e acaba virando um curta metragem, foge dos padrões. Outra alternativa é procurar qualquer atividade, sem ser cultural. E para nós é difícil se submeter a um trabalho sem ser o de sua formação para ter uma renda digna”.
 
O ator ainda conta que o Espaço Nulo foi reconhecido como Ponto Cultural, e recebeu como doação de um empresário um barracão, onde são realizados encontros e ensaios. No início de 2020 foi iniciada uma reforma no local, mas com a pandemia, as obras foram interrompidas e a renda ficou insuficiente. “Criamos uma campanha de doação para que possamos dar continuidade no projeto e não deixar que o espaço morra”, contou Jefferson.
 
Ainda no teatro, Elisa do Nascimento, produtora cultural, relata o pouco amparo dado à Cultura na cidade. “Nós fomos os primeiros a cessar as atividades e continuamos assim após 4 meses. Com pouquíssimos editais adaptados para a nossa classe e sem um Ministério de Cultura devidamente gerenciado e administrando a nosso favor, há poucas propostas de trabalho para a área no interior do Estado”. A produtora ainda ressalta a qualidade e a quantidade de artistas em Franca, pouco valorizada. “Aqui há artistas incríveis, pessoas tendo que se submeter, assim como a grande maioria da classe trabalhadora, a diversas condições incabíveis relacionadas a trabalho e valores. O que nos resta são as campanhas independentes feitas pelos grupos e pelo conselho de cultura. É contar com a sorte e com nosso próprio apoio”, lamentou.
 
Na música, Tiago Leitônez, músico e professor na escola Quintal do Poeta, conta sobre sua preocupação desde antes do primeiro caso chegar em Franca. “Com adiamento dos shows e fechamento dos bares, a preocupação apareceu logo no início. Como vou fazer? Sou músico, vivo da música, ela é minha profissão. Tocaria em 3 casamentos que tiveram que ser adiados”.
Como muitos outros músicos no mundo, Leitônez aderiu às ‘lives’ em busca de uma fonte de renda. “Ajudou um pouco a receber um dinheirinho. Mas no começo não estava animado com a ideia, estava muito triste com toda a situação que vivemos. Além de não ser a mesma coisa de estar no palco, não tem o calor da galera cantando, mas achei legal, apesar disso. Poder passar uma mensagem, mesmo que através de uma câmera”, contou.
 
Sobre como manter uma fonte de renda fixa, o músico conta que conseguiu ser beneficiado pelo auxílio emergencial do governo, mas que teve problemas com a terceira parcela. “Por algum motivo que ainda não descobri, uma parcela do valor de junho sumiu. Fui atrás de descobrir o motivo e ter o dinheiro de volta, mas ainda não obtive resposta”.
 
Por fim, Tiago contou que com a piora da situação da Covid-19 na cidade, preferiu parar com as ‘lives’ que, inevitavelmente aglomeravam algumas poucas pessoas para a realização e conclui: “Não vejo esperança de as coisas voltarem ao normal tão cedo”.
 
Artista circense, Angélica Martins Pereira tem sua própria escola e conta como a pandemia afetou na programação de eventos. “Além das minhas próprias apresentações, direciono os números dos meus alunos, criamos espetáculos, produzimos o “Festival Hup” que ocorre anualmente e, infelizmente, tivemos que cancela-lo este ano”. Angelica destaca também a luta para se adaptar as aulas à distância. “Criamos as turmas online de Circo, Circore e Tai Chi Chuan. Os professores montaram suas salas de aulas em suas casas e os alunos também adaptaram suas casas e contaram com suas famílias para a criação de ambientes seguros para suas práticas básicas”.
 
Apesar das adaptações, a artista e professora diz que nem tudo são flores. “Perdemos 50% dos alunos e 70% da receita. Já negociamos com a imobiliária, cortamos várias despesas, mas apenas com este projeto de aulas online, está se tornando inviável manter o galpão, onde fica a escola”, lamentou.
 
Proprietária de duas escolas de dança, Daniela Tosi Rodrigues comentou sobre as mudanças e dificuldades encontradas por ela e os demais setores ligados à cultura. “A pandemia, junto com a quarentena, trouxe uma crise muito grande para os artistas da cidade, de todos os setores, desde aqueles que têm espaços de ensino como eu ou são profissionais autônomos, até aqueles que trabalhavam em eventos, espetáculos, tocavam em bares”. Sobre seu negócio, a artista lamenta a perda de alunos e falou sobre as adaptações que foram necessárias. “Tive em torno de 50% de cancelamentos de contratos de alunos, e quanto mais tempo dura a quarentena, mais difícil fica manter as escolas e funcionários. Os professores precisaram aprender a lidar com a tecnologia, a reestruturar suas aulas, se reinventar. É muito mais trabalhoso do que as aulas presenciais”.
 
Daniela ainda salienta os reflexos emocionais da quarentena. “Emocionalmente é muito difícil para o artista ficar sem exercer a sua arte, sem o contato com o público. Além do que os alunos, no nosso caso a grande maioria crianças e adolescentes, nos procuram para conversar, desabafar, lidar com suas questões neste momento, através do Whatsapp”, concluiu.

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