Bento e Regina


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Nicola foi homem de poucos amigos. Não que fosse arredio. Pelo contrário. Muito alegre, tornou-se popular, era saudado onde quer que chegasse. Mas amigo, amigo mesmo, daqueles com quem tivesse compartilhado ritual de troca de sangue em volta da fogueira, foram muito poucos. E Bento foi um deles. Certo dia os filhos de Nicola chegaram da escola e encontraram na sala o pai em conversa animada com senhor esguio, de gestos finos. Conversavam animadamente, pareciam amigos de longa data. “É o Sr. Bento, que vai morar no sobradinho azul, ali da frente. Ele morava em Santos, está esperando a família chegar.” Durante a espera, que lhe foi angustiante, o Sr. Bento fez o percurso casa do Nicola-sobradinho azul muito mais vezes que o necessário. Angustiado, sem notícias, compartilhava com o recém amigo suas preocupações. Será que elas estavam bem? Será que havia acontecido alguma coisa? Era longo o caminho. Muito longo, que as estradas eram simples, algumas até sem asfalto. Mas elas chegaram. Dona Inês e Regina. A mãe, belíssima, a filha, uma boneca. Quando d. Inês ia visitar a família, o Sr. Bento se tornava hóspede de casa: onde já se viu cozinhar para uma pessoa só? E nos longos pós jantar, ele contava sua história. Era de família campineira, não havia nascido no Brasil, mas nos Estados Unidos de Campinas. Era de família muito rica. Por exemplo, teve carro desde rapazote; não havia estudado, que gente abastada curtia a vida; não tinha porque ter profissão. Viajara muito, mas falava apenas português. Um dia, a família perdeu tudo. A começar da pose. Ficou-lhe o sobrenome heráldico, nenhum tostão. Já tinha mais de trinta anos, providenciou matrícula em curso que lhe deu profissão, prestou concurso, tornou-se orientador escolar e veio transferido para Franca. Ensinou-nos todos os salamaleques sociais que nós, da rude plebe, nem imaginávamos existir. Quando a mãe se levantava da mesa, por exemplo, ele e Nicola imediatamente se punham em pé; ela voltava, eles se levantavam de novo. E se arrebentavam de tanto rir. Era alucinado pela filha. Nunca vi paixão maior. Tomava conta de sua alimentação, de sua roupa, de seu bem-estar. Velava por ela. Um dia, mudou-se para Santos, levou mulher e filha. A jovenzinha quis e estudou enfermagem, na contramão da vontade do pai, que achava essa, profissão de risco. Quis, bateu o pé, e se casou com rapaz rico e ignorante, a contragosto do pai. Pouco mais para a frente, a tragédia. Durante epidemia de meningite, foi contaminada e faleceu. Ele se desesperou, ficou devastado pelo trauma. Dizem que perambulava pelo cemitério, desistiu da vida, com quem encontrava pelas alamedas, contava seu drama. Chorava pela filha numa ponta do telefone, meu pai chorava da outra, penalizado pelo sofrimento do amigo. Toda vez que íamos a Santos, mesmo depois do falecimento do meu pai, visitávamos o Sr. Bento. Trocamos correspondência, falávamos sempre ao telefone. De repente, silenciosamente, sem que nos déssemos conta, ele saiu da nossa vida.

Recentemente, numa faxina de memória que recorrentemente empreendo, achei pacote com fotos amarelecidas, cartas abertas e lidas, mas ainda dentro dos envelopes originais. Um dos pacotes estava personalizado no invólucro: Bento, dizia, com traço forte sublinhado. Destinatários eram meu pai, minha mãe e eu, depois que eles partiram. Mamãe arquivou a correspondência. Na única carta para mim, ele diz que procuraria nos dias seguintes por Chico Xavier, que iria a Uberaba, residência do médium, porque buscava canal de comunicação com a filha, de quem sentia saudades imensas. Que sonhava com ela, imaginava-a sorrindo chegando em casa, abraçando-o, reclamando das saudades que sentira. Não há dor maior para a mãe que a perda de um filho. Aprendi com o Sr. Bento, que os pais sofrem na mesma intensidade, e ficam devastados quando os filhos rompem a ordem natural e antecedem os pais na partida. Ironia do destino, ele morreu antes de conseguir ir a Uberaba. Talvez tenha preferido antecipar o encontro com a filha, a apenas ter notícias dela.

 

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