Uma estrela no breu do céu luzia quando a madrugada me acordou.
Nossa alma não descansa, tem sede cedo.
No copo cheio das paixões bebe a linha rasa do horizonte.
Eu me sinto vazio como saco de pancada depois da briga,
ou pé de moleque moído no pano de prato surrado na lida.
Ia começar dizendo que te amo, tanto faz, pelo uso tudo anda desgastado.
Coisas boas acontecem na vida de pessoas ruins, também o contrário o tempo todo.
Desânimo e euforia, emoções inconciliáveis na mesma fotografia do facebook.
Numa das voltas o mundo vira de cabeça pra baixo e faz sentido.
Essa impressão de estar internado numa clínica de reabilitação
desde o nascimento - a percepção do egocêntrico é gole grande,
minha voz embarga, quase engasgo com essa linha no horizonte.
_ Que horas são?
_ A mesma de ontem.
_ Quanta mudança num instante!
Repare o movimento desde o fim, tudo começa quando acaba.
Uma serpente mitológica morde o rabo do infinito número 8.
Se ficar parado, ou cai no poço ou é atropelado ou vira poste.
Ninguém sabe o que fazer com o tédio, esse intervalo estremecimento.
Aceitar que nada é algo que pode acontecer chega a nos doer.
Se parado o bicho pega, correndo dá-se a volta e se chega ao mesmo lugar.
Então, estique a linha da História sobre as eras
e verá no mapa das estrelas a eterna novidade:
a humanidade chegou agora e já estraga tudo.
Tudo é repetição, chamamos isso de modernidade.
Toda história já foi contada; nada consola de fato.
A gente só reinventa para não esquecer,
mais do mesmo quando pouco é demais.
Se olhar pro céu, o eterno retorno é salvação,
mas se olhar de frente,
a reprise na sala de estar é um cárcere privado.
Talvez porque o medo da morte seja inimigo da vida,
talvez fomos mesmo programados na maternidade;
somos intrépidos insatisfeitos como nossos avós.
Vou contar história inédita: cometa vivo cai no mar.
_ Ontem foi dia de São João.
_ Que dia é hoje?
Ano que vem tem mais arroz doce e canjica e milho verde,
pé-de-moleque, bandeira e fita colorida iluminando a foto.
Na vertigem do looping o agora dá essa sensação de enjoo,
depois da freada momentânea vem a aceleração constante.
Coloquem-me de novo na hemodiálise, eu preciso de clorofila.
Quando a madrugada acordou, uma estrela no breu do céu luzia.
Meu poema é luz para ver seus olhos, ia mesmo dizer que te amo.