“A filha de Mrs. Dalloway”


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Prêmio UFES de Literatura na modalidade romance, o último livro da francana Vanessa Maranha, cujo título encima estes comentários, traz em si o refinamento do estilo intimista que caracteriza a autora. E surpreende por inovação na estrutura, narrativa fragmentada onde a protagonista de “Mrs. Dalloway”, ficção de Virgínia Woolf, volta à cena e faz companhia à escritora inglesa transformada em personagem. A ficção se mescla à biografia: homenagem de VM a VW.

Dizem que a literatura é antropofágica; ela se alimenta de si. O escritor norte-americano Michael Cunningham, também inspirado em “Mrs. Dalloway”, presta seu tributo a VW com o romance “As Horas”, que lhe rendeu um prêmio Pullitzer. À luz dos problemas dos anos 90, ele introduz a escritora no universo de mulheres de diferentes gerações em seus questionamentos sobre a vida, o feminino, a literatura . Outra homenagem.

O cinema, arte que às vezes busca parceria com a literatura, transformou “As Horas” no bonito filme homônimo dirigido por Sthefen Daldry . Ele escolheu Nicole Kidman para viver VW, um dos nomes seminais da literatura modernista. Despertada por seu contemporâneo, o irlandês James Joyce, que em romance volumoso retratou as 24 horas de um Ulisses do século XX, ela desenvolveu nova forma de contar histórias, onde o enredo passava a ser secundário. Aboliu a linearidade para buscar no âmago dos personagens sentimentos, sensações, imagens, dúvidas, ânsias, conflitos e todas as inquietações de alma que nunca são emparedadas pelo tempo.

Isso também vem fazendo VM na sua já alentada carreira de escritora. No livro em foco, ela se aprofunda ainda mais e inova ao salvar a protagonista de “Mrs. Dalloway” para lhe dar sobrevida em ”A filha de Mrs. Dalloway”. Mas quem é afinal essa mãe de prenome Clarissa? Entre outras qualidades, “a anfitriã perfeita, seu verniz civilizatório, sua dor secreta, alguma raiva” que “então, com o esforço dos séculos se levantaria erguida no melhor sorriso e voltaria à sala”- como a define em solilóquio Elizabeth, a filha. Assim, por via do monólogo interior e do fluxo de consciência, técnicas de difícil domínio e exploradas de forma magistral por VM, esculpem-se as criaturas e se constroem as 170 páginas do romance, por onde transitam o preconceituoso marido de Clarissa, Richard; a irmã escritora Virgínia; a excêntrica governanta alemã Ms. Kilman; e, claro, Elizabeth, o marido John, o filho Robert, a nora Ludmilla. Gerações de mulheres inquietas e complexas.

Liz, o outro nome da protagonista, é o eixo organizador do relato onde a vida se desdobra, mostrando que “ é um ato político em si mesma; pela rebeldia, pela revolução, pela omissão, pelo conluio com a loucura, pelo entreguismo, pela estética, a variada paleta do que era possível ser.” A filha de Mrs. Dalloway, londrina fruto da elite, sente-se bafejada pelos novos ares do mundo, até tentou ser independente numa carreira acadêmica, mas foi refreada em seus desejos pelo pai e pelo marido; e bem antes disso por Ms. Kilman,” o avejão malfazejo sempre em si”- personagem perturbadora, na qual a romancista investiu com gênio, mantendo-a viva até á última página.