POLÊMICA

Mensagens e áudios mostram que ninguém da equipe da Saúde conhecia 'programa de testagem em massa'


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O GCN teve acesso a uma troca de mensagens por e-mail entre a assessoria do hospital e servidores municipais que comprovam que os servidores que deveriam estar envolvidos no projeto não tinham conhecimento do mesmo.
O GCN teve acesso a uma troca de mensagens por e-mail entre a assessoria do hospital e servidores municipais que comprovam que os servidores que deveriam estar envolvidos no projeto não tinham conhecimento do mesmo.

Troca de mensagens por e-mails, áudios de chefes da Saúde Municipal e entrevista do assessor de imprensa do IMA (Instituto Medicina do Além), Gabriel Berbel, apontam que a negociação para a realização de uma testagem em massa na população de Franca para o Covid-19 envolveu diretamente o prefeito Gilson de Souza (DEM) e o Hospital da Caridade, que funciona no IMA. O programa envolveria recursos superiores a R$ 8 milhões, que seriam administrados de acordo com critérios desconhecidos.

Na Secretaria Municipal de Saúde e na Vigilância Epidemiológica de Franca, ninguém sabia da “negociação” de uma parceria da Prefeitura com a instituição para realizar 40 mil testes na cidade, cobrindo 10% da população, em um projeto que supostamente envolveria o município, a Unifran (Universidade de Franca) e o Hospital Albert Einstein numa operação conjunta com o Hospital da Caridade.

Todos foram surpreendidos pelo comunicado enviado à imprensa pela assessoria de imprensa do Hospital da Caridade, na tarde da última sexta-feira, 19. O que chamou atenção é que o número de testes anunciados se aproxima dos 46 mil que a Prefeitura de São Paulo divulgou que fará para testar a evolução do vírus na cidade de 12,2 milhões de habitantes – 35 vezes maior que Franca.

No mesmo dia, o GCN contatou o secretário de Saúde, José Conrado Netto, e o chefe da Vigilância Epidemiológica, Felipe Granzotti. Ambos afirmaram desconhecer o projeto. A informação da assessoria de imprensa do Hospital da Caridade era de que o programa seria apresentado numa entrevista coletiva com a participação do prefeito Gilson de Souza na manhã de segunda-feira, 22.

O GCN teve acesso a uma troca de mensagens por e-mail entre a assessoria do hospital e servidores municipais que comprovam que os servidores que deveriam estar envolvidos no projeto não tinham conhecimento do mesmo.

IMA avisa Comunicação
Na sexta, após enviar o comunicado à imprensa, a assessoria do Hospital da Caridade mandou e-mail para a assessoria de comunicação da Prefeitura com informações sobre a coletiva de imprensa marcada para a segunda-feira. Pelo e-mail, é nítido que o assessor de comunicação, Junior Martiniano, não sabia de nada.

Na mensagem, é informado que “o Plano de Trabalho e Aplicação da emenda parlamentar está sendo concluído com os técnicos que vieram de Brasília, do Hospital Albert Einstein e do Hospital da Caridade”, e que cópia do plano seria entregue na casa do prefeito durante o fim de semana.

A mensagem, enviada às 16h56 de sexta-feira, informa ainda que “Emenda Parlamentar do Partido Republicanos ao Programa de Investimentos Emergenciais do Covid-19 do Ministério da Saúde destinada ao Hospital da Caridade Dr. Ismael Alonso y Alonso de Franca, no montante de R$ 8.386.613,72, com pagamentos semanais de R$ 2.096.653,43, sendo que a primeira parcela já foi transferida ao Fundo Municipal de Saúde de Franca em 3 de junho de 2020.”




Comunicação repassa a mensagem 2 dias depois
O problema é que a comunicação da Prefeitura encaminha o e-mail para as secretárias de Gilson e de Netto, já na segunda-feira, às 8h48. Júnior Martiniano, assessor de Comunicação da Prefeitura, ressalta no final da mensagem: “Observem que o sr. Ronaldo (Knack, assessor do hospital) menciona para hoje uma coletiva de imprensa, que seria às 10h no Hospital da Caridade, mas não tenho esta confirmação”.



Secretário reafirma desconhecimento
Netto responde afirmando que a verba não existe e que recursos de valor parecido foram destinados ao Hospital “Allan Kardec”. “Informo a todos os interessados de que não foi depositado no Fundo Municipal de Saúde nenhum valor em reais destinado ao Hospital da Caridade, conforme nota da assessoria de imprensa daquela unidade”, diz o secretário, por e-mail.

Netto diz ainda que “desconhece qualquer portaria ou outra legislação que destine os valores para o Hospital de Caridade”. “Se existir alguma portaria ou legislação concreta desta emenda parlamentar, favor repassar para esta Secretaria Municipal de Saúde para averiguação do porque este valor não foi depositado ou o porquê não fomos informados de nenhum repasse para a Instituição”, solicita, já às 11h21.

Para uma hora antes, estava marcada a coletiva de imprensa para anunciar o programa de testagem. Ao evento, não compareceram nem o prefeito, nem o secretário de Saúde, nem nenhum servidor lotado na secretária. O diretor do Fussol (Fundo Social de Solidariedade), Alexandre Alonso, é que foi designado para representar a Prefeitura no anúncio do programa.


Busca de esclarecimentos
Na tarde de segunda-feira, o GCN acionou a assessoria do Hospital da Caridade e foi informado que, como “houve confusão nas informações prestadas pelo Ministério da Saúde dos valores da emenda parlamentar”, a instituição esperaria a confirmação para se pronunciar oficialmente.

Netto foi contatado novamente e respondeu: “Não foi tratado nada comigo”. A reportagem então enviou mensagem para o coordenador de Saúde, Luiz Carlos Vergara, que na noite de segunda, respondeu que não havia “verba nem testes” e que a notícia teria sido “plantada”.

Também na segunda-feira, foram acionadas a assessoria do partido Republicanos, Hospital Albert Einstein e Unifran. Na terça, pela manhã, a universidade disse que “colocou à disposição seu Comitê de Ética em Pesquisa, regularmente registrado no CONEP, para receber os projetos em questão e produzir o parecer”. Indica que sua participação seria apenas essa.

A matéria com a afirmação de Vergara e a informação da Unifran, única a responder, foi publicada na manhã de terça, quando a assessoria de imprensa do Hospital da Caridade, procurada pelo GCN, preferiu não comentar.



Acusação infundada
Na manhã desta quarta-feira, a assessoria do Hospital da Caridade divulgou nota acusando o GCN de “fake news”, alegando que durante uma reunião no gabinete do prefeito, no dia anterior, Vergara teria dito que não fizera tais afirmações à reportagem.

Da reunião, além de Gilson, participaram Wellington Berbel, presidente do Hospital da Caridade; João Berbel, fundador do IMA; Alexandre Alonso, diretor do Fussol; e Vergara. Mais uma vez, o secretario de Saúde e a Vigilância Sanitária não teriam sido convidadas a acompanhar as tratativas.

Nesta quarta-feira, Vergara mais uma vez confirmou ao GCN tudo o que havia dito e afirmou que, até antes da reunião na tarde de terça-feira, ninguém na Saúde sabia de tal projeto. Disse ainda que a reunião foi exclusiva para discutir a emenda dos R$ 8 milhões, sem maiores detalhes sobre o programa de testagem.  “A discussão foi apenas isso”, disse o coordenador municipal de Saúde, descartando qualquer desmentido, como a assessoria do Hospital da Caridade alegou.

No programa Hora da Verdade, da rádio Difusora, Gabriel Berbel, assessor de imprensa do IMA, foi confrontado com o áudio e questionado sobre o motivo da nota com afirmações mentirosas contra o GCN ter sido emitida pelo hospital. Ele disse que não sabia da existência do áudio. “Foi um desencontro de informações.” Berbel não se desculpou pelo erro.

Já sobre nenhum servidor com cargo de chefia na Secretaria de Saúde ter conhecimento do plano de testagem, Gabriel Berbel disse que o hospital tem contato “direto” com o prefeito Gilson de Souza. “Todos os dias, nós estamos na Prefeitura. Todos os dias, temos contato direto, falamos principalmente com o prefeito.”




A reportagem procurou a assessoria do deputado Milton Vieira (Republicanos), apontado como autor da emenda que destina a verba para o Hospital da Caridade, na terça e nesta quarta-feira. Também procurou novamente a assessoria do hospital Albert Einstein. Ambos ficaram de responder às indagações. Até o início da madrugada desta quinta-feira, nenhuma resposta havia chegado.

 

Reproducao do Diario Oficial com o repasse de verbas para a Santa Casa e para o Hospital Allan Kardec, mas nenhum para o Hospital da Caridadee

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