Tomara que suas avós tenham participado de sua educação. Particularmente, fui educada também por ambas, materna e paterna, e hoje, juntamente com suas receitas culinárias, algumas habilidades manuais, referências e preferências, notadamente algumas idiossincrasias e traços de personalidade, além de alguma semelhança física, desfruto de observações de vida, que deveria seguir mais à risca para viver melhor. Certo dia, do qual não me lembro, bati na máquina de escrever, que na época nem existia computador, a lista com título “Coisas de minhas avós”. Recentemente, remexendo no baú de recordações, entre outras relíquias reencontrei a saborosa lista de adágios populares copiados por elas ou extraídos de fontes impossíveis de serem apontadas. Achei simpática a referência, pus-me a ler e acredito que a folha cheia de adágios foi mantida na caixa de lembranças ao lado de outros papéis tão diferentes, justamente pelo título. Não me arrisco a adivinhar o porquê da escolha de cada um deles, pinçados entre milhares de outros, que existem por aí e frequentemente usados por elas, também. Aqui estão seus ensinamentos: é para ler e refletir sobre o significado de cada um. “Cachorro que fuça tatu encontra mordida de cobra. Quem não pode com o pote não se exibe com a rodilha. Para quem traz barriga cheia toda goiaba tem bicho. Quem puxa aos seus não degenera. A filha da onça traz as pintas que nem a mãe. Antes magro no mato, que gordo no papo do gato. Antes pouco do que nada. Boi lerdo só bebe água suja. Caminhante cansado monta em asno se não tem cavalo. Cavalo que voa não perde espora. Cerca mal feita convida o boi a passear. Chi va piano, va lontano. O hábito não faz o monge. Mulher que não se enfeita por si se enjeita. Nem tudo que reluz é ouro. O bom cabrito não berra. Os homens fazem as leis, as mulheres os costumes. Quem muito fala dá bom dia a cavalo. Panela que muitos mexem ou sai crua ou sai queimada. Papagaio velho não aprende a falar. Pé de galinha não mata pinto. Duro com duro não faz bom muro. Em casa de enforcado não se fala em corda. Fala pouco e bem, ter-te-ão por alguém. Homem velho, mulher nova, ou corno ou cova. Lagartixa sabe porque não gosta de vara. Laranja madura na beira da estrada tá bichada ou tem marimbondo no pé. Mais vale um gosto do que quatro vinténs. Mais vale um mau acordo que um bom pleito. Melhor é merecer sem ter que ter sem merecer. Pedra que rola não cria limo. Basta o cheiro para saber a madeira que foi queimada. Põe-lhe a vara na mão e conhecerás o vilão. Porco sabido não se coça em pau de espinho. Praga de urubu não mata cavalo velho. A pressa é inimiga da perfeição. Onde está fora o gato, folga o rato. Quem anda depressa não encontra o que procura. Quem come a carne tem que roer o osso. Quem espera sapato de defunto morre descalço. Quem está vivo sabe onde põe os pés; morto é que é levado. Quem faz o mal, que espere outro tal. Quem perfuma o porco perde o cheiro e o juízo. Quem tem boca não manda soprar. Quem tem rabo de palha não deve chegar perto do fogo. Santo de casa não faz milagres. Segredo contado, segredo espalhado. Vão as leis onde querem os reis. Viúva rica sempre casada fica.”
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