O Liso do Sussuarão existe


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Dentre as 424 localidades reais citadas por Guimarães Rosa em “Grande Sertão- Veredas” encontra-se o Liso do Sussuarão. É dos topônimos mais relembrados pelos leitores da obra monumental. Vasta região desértica, o Liso, também chamado de Raso, é contraponto à rede de oito rios e sessenta e seis cursos de água citados no romance. O mundo mais líquido que sólido da narrativa já levou à consideração de que o nome do protagonista Riobaldo seria uma elisão de rio baldo, rio represado. O Liso delimitado pela geografia foi transformado pelo poder da ficção que elevou a literatura brasileira a patamares muito altos.

De acordo com pesquisa que redundou em tese de mestrado do engenheiro florestal Guilherme Braga Neves, o Liso integra polígono de 258 mil Km², abrangendo Minas, Bahia e Goiás, estados por onde se desloca o jagunço Riobaldo Tatarana e seu bando. Na velhice, armas depostas e alma desarmada, ele tenta ordenar sua vida recontando suas peripécias a um ouvinte não nomeado. Criador de um universo extraordinário, Rosa andou por vastidões pouco conhecidas pelos brasileiros, caderninho a tiracolo, ouvindo sertanejos. Foi assim que construiu uma metáfora profunda para os caminhos que nós, humanos, percorremos durante nossa existência.

O engenheiro descreve o Liso com a objetividade do profissional em sua área de atuação. O labirinto de estradas de areias brancas, terras vermelhas e faixas roxas começa no paupérrimo município do Cocos, oeste baiano, no sopé da Serra da Sussuarana, e se estende por cerca de 100 km. Fazer a travessia é difícil, pois a areia forma em muitos trechos camadas fofas de até um metro, sendo quase impossível transitar, mesmo com trator. Nas margens, a paisagem é assustadora, marcada por negrito em formato de bichos. Aqui e ali estiola a vegetação rasteira. Não se veem fontes de água. O sol é abrasador.

O escritor fotografa o Liso com as lentes da alma agoniada de Riobaldo. “O Liso do Sussuarão não concedia passagem a gente viva, era o raso pior havente, era um escampo dos infernos. Se é, se? Ah, existe, meu! Eh, que nem o Vão-do-Buraco? Ah, não, isso é coisa diversa (...) Nada, nada vezes, e o Demo: esse, Liso do Sussuarão, é o mais longe- pra lá, pra lá, nos ermos. Se emenda em si mesmo. Água não tem. Crer quando a gente entesta com aquilo o mundo acaba: carece de se dar volta, sempre. Um é que dali não avança, espia só o começo, só. Ver o luar alumiando, mãe, e escutar com quantos gritos o vento se sabe sozinho, na cama daqueles desertos. Não tem excremento. Não tem pássaros.”

Por duas vezes Riobaldo viveu a experiência da travessia desse lugar vazio de vida. Na primeira, integrando o bando de Medeiro Vaz, sofreu a dor do fracasso; na segunda, no lugar do chefe então morto, transpôs com os companheiros os muitos obstáculos, realizando seu maior objetivo naquele momento. A glória porém não foi feita apenas de bravura e resistência; arrastou consigo mortos, fraturas, desilusões.

Tenho pensado muito nesse deserto como símbolo da travessia que estamos fazendo em 2020, ano marcado por acontecimentos perturbadores. Uma pandemia nos assola com vírus até agora misterioso, que já contaminou milhões, matou milhares, continua buscando hospedeiros onde quer que os encontre desprevenidos. Um governante paranoico, obsessivo, rude e destituído de compaixão minimiza a doença, ignora os doentes, desconsidera as famílias enlutadas. A economia fragilizada por conta da necessidade de isolamento social desenha uma crise que já deixa imenso contingente de desempregados.

No mapa físico do Brasil, pontos cada vez mais aglutinados revelam o avanço da peste, da pobreza, do descaso. Imitando nossa topografia, números mórbidos erguem montanhas nos gráficos, enquanto os platôs ainda não são avistados. Depois virão as ribanceiras. Os que estão vivos de fato tentam atravessar a duras penas esse lugar de trevas, esse tempo maligno. Os animais de Riobaldo e seus homens quase atolaram na areia, os cavaleiros sentiram sede e fome, a paisagem se mostrou tétrica, o sol escaldou os miolos, muitos deliraram. Mas não havia como voltar nem ficar parado. Como eles, todos temos de seguir. Com esperança, mantendo a sanidade, convocando a coragem- primeira qualidade que a vida requer da gente.

Haveremos de chegar ao outro lado. Diferentes, como Riobaldo. Mais fortes e lúcidos sobre o que queremos para nós.

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