Lembro como se fosse ontem
Da gravidez do João
Há quatro anos
Tinha o tal do Zikavírus para aterrorizar
Mas hoje vejo que isso não era um problema
Lembro dos olhares
Ah os olhares da família
Das pessoas na rua...
Pareciam beija-flores rumo à flor
Eu: perfume, luz, ímã
Não havia quem não sorrisse ao cruzar com a grávida
Recebia o primeiro pedaço de bolo
Um lugar na fila do ônibus, restaurante, cinema, teatro
E até no coração de pessoas malditas
Mãos e mais mãos, de qualquer um na barriga
Não disse que era ímã? Um estranho à minha porta?
Não, eu gostava desse paparico
Sou carente de nascença
Filha do meio (desculpa dizer caros pais): a esquecida
Página virada
Novos tempos
Tempos de Coronavírus
Eu grávida novamente
Querendo exibir meu ventre
Sem saída
Olho para o espelho
É preciso me admirar
Um elogio de boca própria
Um afago na barriga
As pessoas, benditas pessoas
O corona tirou de mim
Tento uma fotografia sozinha
É preciso sair do lugar
Mexer os braços
Me contorcer no chão
Faço força para não me lembrar do número de corpos estendidos no chão
O Zika me afastou do conforto
Era pano pra todo lado
Roupa de frio no calor
Suador, pressão baixa, repelente até nos lábios
Mas o que eu não percebia era que o Zika não me tirou o principal:
Meus laços de família
O corona me afasta de cada rosto
O problema agora são os outros
A terceira guerra mundial me repele do calor humano
Está terminantemente proibido ver gente
A trincheira é a porta de casa
A armadura uma máscara
E o inimigo meus entes queridos
Procure sorrisos nos olhares
Amor pelos celulares
Nunca foi tão preciso SER
Gostar de si
É hora de se desprender dos aplausos e reconhecimentos alheios
Não quero aqui agradecer o meu malfeitor
Mas ele me fez deixar de ser flor
Para me tornar beija-flor de mim
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