As ruas estão desertas. A madrugada é coberta curta para o medo de quem dormiu inseguro. Evitando barulho abro a janela. A vista alcança pouco, o assustador sem descanso nas sombras da razão. A sobriedade da alma seria instante maior que o mundo ou apenas vislumbre na insônia? Sou lobo longe da matilha, sem asilo minhas palavras buscam os adormecidos. O breu apura o silêncio quando faz a madrugada cintilar como se a noite em Arles pintada por Van Gogh cobrisse Franca. Trago para o enquadramento impressões do vazio.
Cães protegidos entre muros ladram para os sem dono em liberdade.
No rosto daquela mulher há uma pergunta não respondida durante o dia. Ela sonha não ter se casado com aquele indiferente a sua dor. A ruga na testa é busca por coragem.
Aquela menina tem sede, quando vai ao banheiro não encontra leite pra sua fome. As caixas de papelão que recolheu no mercado serão recicladas por centavos e carne moída.
O guarda saberá dizer o quanto faz frio. Em sua motocicleta, passa rápido. É meu conhecido, ora vejam! Quase fora da moldura acena “tudo em ordem”. Para ele bastaria eu fechar a janela que o universo se recomporia sem causa ou efeito. Minha pequena vingança por ficar com o universo sem tampa é não acenar de volta.
Aquele rapaz apaixonado nos braços do namorado avisara os pais que passaria a noite na casa de uma amiga. Indulgência e ignorância, ninguém sabe tudo. O que sentimos muda a cada rotação do planeta como, se reagindo à posição da luz, fugíssemos de ser iluminados.
Do bolso daquele bêbado encostado na marquise cai a foto da esposa infiel. Seria preciso binóculos para ver beleza ou lentes para mudar a realidade das coisas sem julgamento.
Um homem entra naquela casa, devo chamar a polícia ou esperar que o engano mate outro leiteiro? Porque há pouco leite no país, é preciso entregá-lo cedo. Há muita sede no país, é preciso entregá-lo cedo. Há no país uma legenda, que ladrão se mata com tiro. É tarde, Deus está calado. Tem sorte quem dorme, ladrão armado faria maior estrago se estivéssemos realmente acordados. Esse silêncio de língua morta sem tradução é perfeito.
Quando o asfalto amanhecer, o piche de brilho ancestral saberá as mesmas rotas de fuga.
Mas não agora. Agora um manto espesso e úmido cobre a cidade. O inverno chegou definitivamente para a Alta Mogiana. O cinza predomina desde a esquina até o décimo quinto andar dos prédios e depois. O encanto do instante resiste na espera.
Anônimos têm seus nomes na lista dos invisíveis reconhecidos. Perdi o sono nesse paradoxo. Há muito trocamos liberdade por segurança. O ar quente que escapa dos meus pulmões é vaga música. Contra a luz do segundo poste, aquele vulto sou eu. Deixo-me lá fora, cão bêbado sonâmbulo. Fecho a janela com a impressão de que o fantasma que habita meu corpo saltou da boca pra fora.
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