A branca preta


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Ou quem sabe o maior dilema da quarentena:

Tentar deixar acontecer o “Let it be”

Não bastassem as tragédias que entram e dilaceram nossa alma

As crianças em casa, as gravidezes ardendo feito brasa

Os maridos alucinando com a empreitada

E as mulheres rodando o pião

Roda pião

Pião roda

Eu não posso desapontar meu chefe, meus filhos, meu marido

Meu vizinho, a vizinha fofoqueira, a moça da janela, a sogra tagarela

A vidraça suja que me pede flanela, a panela pronta para o frango com goela

Roda pião

Pião roda

Eu não posso parar de trabalhar

A velha não pode parar de fiar

A quarentena é boa para o auto o quê? Conhecimento? Relaxamento?

 Vai ver se eu tô na esquina vendendo cloroquina!

Sou mulher negra, nesse Brasilsão injusto, minhas manas morrendo pelo patriarcado, meu filhos pretos não são só vítimas do corona, o dia a dia é miséria, bala perdida, bala certeira, bala amarga que corre na veia

Não tinha texto pro jornal onde  escrevo toda semana

Agora tenho, tá pronto

E não vou reler, não aceitarei críticas de mim mesma, não agora, não agora que me sinto preta, a branca mais preta do Brasil.

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