Quando a quarentena começou, fiquei um pouco desnorteada porque sou do tipo que leva em conta a rotina. Se ela às vezes pode ficar entediante devido à repetição, também costuma nos salvar quando caímos nos emaranhados de alguma balbúrdia. Nos primeiros dias, arrumei livros na estante, porque quase nunca os agrupo onde deveria, ou seja, por gênero, minha preferência. Assim a ficção corre o risco de encostar em obra didática e uma publicação sobre viagem ficar junto de uma coleção de culinária. Por isso tenho de ficar colocando ordem nas prateleiras que eu mesma desarrumo.
Depois dos livros fui a algumas tarefas domésticas, tipo separar roupas e sapatos para doação, seguindo sugestão de peça publicitária que vi na TV. Troquei de lugar objetos cuja função é mostrar que uma casa também é espaço onde reunimos memórias- de amigos, lugares, pessoas queridas que já não estão mais conosco. Lavei umas cortinas que começavam a juntar pó. Na cozinha, reproduzi pratos - pães e bolos, especialmente - que a Rita Lobo tem mostrado nas suas lives. No jardim, experimentei outros tipos de receitas para afastar formigas e nenhuma deu certo. Até que me lembrei de minha nora Milena, que me disse ser o sabão em pó tiro-e-queda. De início duvidei, mas depois que folhas de hortelã ressuscitaram no vaso que tenho próximo à cozinha, acreditei. Uma colher de café de Omo em cada olho de formigueiro. Tranchã.
Foi mandando as formigas embora que me ocorreu plantar tomates, porque havia feito um molho bem italiano e separado dois frutos pra lá de maduros. Naquela altura a ideia já me acenava. Pensava nas velhas casas assobradadas do sul da Itália, em cujas sacadas vemos, no verão, pencas de tomates vermelhos, plantados até em latas, causando admiração a turistas. Lembrei-me também de minha infância, porque minha mãe, filha de italiano, plantava tomateiros em toda casa para onde nos mudávamos. Eu a ajudava a amarrá-los nas estacas para que não tombassem no chão e fenecessem; e acompanhava depois as flores pequenas, amarelas e sem graça, desabrocharem. Ficava atenta aos primeiros frutos, que cresciam de forma paulatina e tinham de ser colhidos antes de completamente maduros, para que pássaros não os estragassem.
Retirei as sementes e as coloquei num pires que levei ao sol. Fiz isso instintivamente, porque achei que assim elas ficariam livres do resto de polpa e brotariam com mais facilidade. Como Seo Argemiro, o jardineiro, havia deixado um cocho preparado com terra adubada para plantarmos cebolinha, aproveite e ali joguei as sementes brancas e pequeninas.
Fui aguando aquela terra todas as tardes e olhando e céu que nos protege que agradeci pelos meus pulmões que inspiravam e expiravam sem que eu sequer me desse conta do movimento. De certos milagres fisiológicos só nos damos conta quando os perdemos. Deve ter sido na terceira semana de isolamento que um dia, ao virar o bico do regador, vi que começavam a surgir brotos na terra e me emocionei. O romper da vida, qualquer vida, me comove. E a partir de então, todos os dias, cuidando do verde, me dava conta de que algo diferente acontecia- o caule engrossava, as folhas duplicavam, o característico cheiro acre inundava minhas narinas ao aproximar o rosto.
Quando as mudas chegaram aos dez centímetros, eu as dividi em vários vasinhos e os coloquei em lugar ensolarado porque essa planta tropical que os europeus descobriram aqui na América, tem necessidade de sete horas diárias de luz direta. Agora, duas vezes ao dia, de manhã e ao entardecer, eu as águo, e avalio seu desenvolvimento. Já têm seis semanas. Acredito que quando sairmos desse isolamento difícil, meus tomateiros estarão floridos, anunciando uma pequena safra.
Já combinei com amigas uma reunião, quando pudermos circular sem medo da pandemia. Uma vai levar a toalha que vem bordando com motivos florais e será doada ao bazar de uma instituição; outra, uns pães que aprendeu a fazer e ficaram tão bons que ela passou a vendê-los por delivery; uma terceira, mantas coloridas de tricô, bonito trabalho artesanal colocado à venda com sucesso.Eu tenho a intenção de levar o mais bonito dos meus vasos,carregado de tomatinhos ou só de folhas. Mas vivo!
Cada pessoa desenvolve sua própria maneira de esperar.
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