As suculentas, plantas cujas folhas grossas parecem esculpidas e variam em forma e tonalidades segundo a espécie, pedem pouca água e muita luz para sua sobrevivência. Tenho algumas e costumo perder o olhar na rosa-de-pedra, plantada em vasinho de barro, afixado num muro que fica defronte do lugar onde escrevo desde que a quarentena começou.
Cumpro fielmente o isolamento social imposto pelo avanço da peste, porque sigo junto com a ciência, busco esclarecimentos nos artigos assinados por especialistas, dou crédito ao que registra o noticiário pontual. Não sou cega: diante dos três milhões de infectados e das mais de duzentas mil mortes, penso que vivemos o pior dos últimos cem anos no planeta.
Estamos no fulcro da covid-19 e os médicos continuam se surpreendendo com o poder destrutivo deste coronavírus. Diante do possível ataque do inimigo invisível, que pode significar morte, sentimos medo. É natural; impossível seria não sentir se não nos filiamos à ala negacionista. Felizmente tal emoção não ocupa o tempo todo nossa mente; caso contrário isso nos imobilizaria por completo. Para driblar o sentimento quando ele reaparece, cada um usa seus próprios recursos. Eu encontro conforto nas manifestações de arte e na natureza- sinônimos de vida. Olhar para a beleza, essencial e redentora, não quer dizer fugir do mundo neste momento, conforme já ouvi dizer. Ao contrário, significa voltar a ele, à sua porção essencial que o ódio e o fanatismo, entre outras formas do Mal, podem encobrir.
Atento então para as minhas suculentas, cujas pétalas antes verdes e agora levemente avermelhadas anunciam que o outono chegou. Nos últimos dias, tendo admirado a mudança de cor, vi na face externa do vaso, saindo de um dos orifícios de drenagem para a água, umas delicadas folhas em tudo diferentes da planta gorducha.Eram brotinhos de avenca que para sobreviver haviam procurado oxigênio ganhando a parte externa do vaso. Assim iam mantendo a vida embalada pela brisa de abril.
Curiosa diante de coexistência tão inusitada, passei a acompanhar a evolução daquela vida vegetal que cresce desde que a semente minúscula, trazida por vento ou pássaro ou inseto, ali se alojou. E não me perguntem por que, mas tão logo a avisto ao tomar meu café na manhã que nasce, penso em Renato Russo cantando “La forza della vita”, de Paolo Valessi. Imagino-o naquela fase em que, sofrendo as consequências do HIV, doença à qual também chamaram peste, buscou alento na música e cultura italianas, indo atrás dos antepassados Manfredini. Nestes instantes me vêm à memória versos da canção que emocionou tanta gente em período de medo e dor, também de isolamento. E me emociono com os versos que conferiram esperança em tempos nublados:
“Mesmo na prisão da nossa hipocrisia/ Mesmo no interior dos hospitais nessa nova doença/ Existe uma força que te guarda e reconhecerás/ É a força mais teimosa que existe em nós/ Que sonha e não se entrega/ É a vontade, mais frágil e infinita / É a nossa dignidade/ É a força da vida.”
A canção faz parte do disco “Equilíbrio Distante”, lançado em 1995, século passado.Tudo já tão longínquo, que uma avenca nascente em circunstâncias adversas traz para bem perto.
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