Coronavírus


| Tempo de leitura: 4 min

Ultimamente venho notando uns comportamentos estranhos no pessoal desta família para a qual entrei faz uns dez anos. Eles sempre gostaram de mim e me tratam bem, mas houve uma mudança radical na sua vivência. O homem da casa é um sujeito muito bom, sai todo dia bem cedo, arrumadinho com terno e gravata, com uma maleta cheia de papéis. À tarde, volta bastante cansado, trazendo seus filhos – um menino xarope, feio, sardento, cabelo de fogo e que deve estar lá com seus oito anos de idade e uma menina um pouco mais nova, meio enjoada, emburrada e com uma cara de quem apanhou, mas não quer que ninguém saiba - dá um beijinho na mulher e, antes mesmo de tomar banho, abre uma cervejinha, liga a televisão e se esparrama no sofá, largando os sapatos e a meia fedorenta no meio da sala. A mulher fica o dia inteiro em casa, mas não a vejo parada. Está sempre correndo para levar os filhos à escola, passa no mercado, na feira, abastece a cozinha, inclusive com as cervejas do marido, junta as roupas espalhadas pela casa, liga a lavadora, arruma a louça da pia, acende o fogão e já começa a preparar as comidas lá deles. Ainda sobra um tempinho para me fazer um carinho, arrumar a minha comida e a organizar a bagunça que eu também costumo fazer.

Agora eles pararam de sair de casa, exceto a mulher que, de vez em quando sai para abastecer a despensa, mas rapidinho ela retorna. As crianças ficam brincando com seus celulares até o fastio e aí o pai, também entediado com a TV, inventa uns jogos bens interessantes, pois prendem a atenção dos encardidos e, assim, passam boas horas rindo e brincando; eu realmente nunca tinha visto uma situação dessas. A mãe, depois de seus afazeres, também entra na brincadeira e o tempo passa rapidamente. O pai quase nunca conversava com a mãe e com os filhos, mas agora a coisa mudou. Lá pelas altas horas da noite, depois que as crianças vão dormir, presenciei uns amassos e uns gemidos, que me obrigam a fingir que estou dormindo, deitado na minha cama.

Os moleques até melhoraram os seus comportamentos e já não ficam tão emburrados, chegando até a brincar de bola comigo. A mãe e o pai também os ajudam nos deveres escolares e explicam partes que eles não entenderam na escola, que também não estão frequentando. Está muito esquisito. À noite, eles saem para o quintal de sua casa, apagam as luzes e olham para o céu coalhado de pontos brilhantes e tentam adivinhar-lhes os nomes. Durante o dia, saem para o jardim e, pasmem, descobriram que tem diversas casas semelhantes e que as pessoas que nelas moram chamam-se vizinhos: crianças, jovens, adultos, velhos, cachorros e gatos. Deparam-se com as pessoas que tem alguma semelhança, pois estão rindo, cumprimentando, acenando e tentando manter uma conversa amena, falando a respeito da nova situação em que se encontram e que nem mesmo eles estão entendendo a mudança sofrida.

Nessas pequenas conversas viram que a correria para ganhar dinheiro, comprar uma casa maior e um carro novo já não estão em suas prioridades. Comentaram sobre as ruas desertas, os pássaros cantando tranquilamente nas árvores, sem barulho de automóveis, caminhões, trens, aviões e, principalmente, sem gente correndo, atropelando os velhos, roubando celulares e carteiras. O lixo nas ruas praticamente desapareceu. A ambição, neste momento, se circunscreveu a ter próximo de si a troca de carinhos e afagos do companheiro e dos filhos; a paz interior, proibidos que estavam de correr nas ruas poluídas, frequentar lugares congestionados, agrupar com pessoas desconhecidas e mau humoradas, irritadas e desrespeitosas com seu próximo, começou a aflorar.

Eu não consegui atinar com essas mudanças, já que meu entendimentos é muito curto, mas tenho certeza que apareceu algum tipo de anjo para dar uma ordem no caos que estava se formando ao redor das pessoas, obrigando-as a valorizar mais a humanidade e, por que não?, os animais. A ganância, a busca desenfreada pelo dinheiro que não levaremos ao túmulo, os vícios adquiridos durante a busca pelo equilíbrio ou prazeres nunca dantes experimentados, estão deixando, pouco a pouco, de ser uma primazia no desejo do ser humano.

Eu só tenho que agradecer a esse anjo que mudou o comportamento desta família, melhor me alimentando, compartilhando mais com minhas brincadeiras, dando-me mais assistência médica, levando-me semanalmente ao veterinário e cuidando mais de meu pelo e das minhas pulgas.

Feliz o dia que fui adotado por essa família linda.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários