Trinta e tantos dias enclausurada. Já fiz faxina, já descobri material valioso escondido nas arcas, já organizei meus filmes – dei-lhes nova e mais moderna catalogação. Mudei tudo. Tem uma prateleira que denominei Prediletos, ou seja, aqueles que já vi e revi cem vezes, mas se der tempo, até o final da vida hei de vê-los outras cem. Exemplos: A Falsária, baseado no romance homônimo de Oscar Wilde e Lemon Tree, filme de drama israelense. Tem os Clássicos (baseados na obra de Jane Austen); Espanhóis (só do Ricardo Darín tem onze ou doze); Franceses (a prateleira mais cheia); os Italianos, que lustro, lustro e me pego cantando seus temas musicais - A Vida é Bela, Cinema Paradiso, até Candelabro Italiano... Já desocupei as gavetas dos móveis, limpei poltronas, mandei lavar os tapetes. Bem que me ocupei. Mas limpar e reorganizar a casa, tem um quê de melancólico e triste. Troco as fotos dos porta-retratos? Deixo as antigas? Mudo os enfeites? Essa jarra era da vovó, aquela da mamãe, a outra foi minha sogra que me deu. E os móveis torneadinhos, de madeira boa que já duram quase cem anos desde o casamento dos avós paternos que eu cuido tanto mas que também ficarão para trás quando eu me chamar saudade, será que não seria melhor já perguntar aos filhos quem se interessa por eles? Se responderem sim, será glorioso. Se, ao contrário, responderem não, vou ficar bicuda, vou me julgar incompetente por não ter passado para eles essa paixão pelos ancestrais, traduzida na admiração, glorificação e benquerença de objetos que lhes pertenceram. Semanas de tormentas internas e atormentações. Ao terminar essa tarefa específica, passei imediatamente para pertences pessoais e íntimos, mas apenas depois de saber que a quarentena continuará e meu tempo, deverá ser melhor usado que ficar ouvindo comentaristas políticos da internet malharem ora Bolsonaro, Madetta, Dória, Maia, Alcolumbre, ora quem fala, ora quem fica calado. Ou está quietinho no canto. Despejei o conteúdo de quatro gavetões na cama, descuidadamente. Quase quatro décadas desfilaram num segundo diante dos meus olhos. Fotos, convites, cartões, pentes, lixas de unha, livrinhos, canetas, palavras cruzadas, novenas, rezas, dois tapa ouvidos de avião – vai que algum barulho externo me incomoda... Cadeados, bilhetes, postais recebidos em outros tempos, postais que deveria ter mandado e não postei, bilhetes dos filhos, vidros de perfumes vazios, flores secas, capas de livros, cadernetas de telefones de gente que nem me lembro mais, ou que mudou daqui e perdeu contato comigo. E muitas fotos. A de festa antiga da Patrícia, que guardei pela singularidade: coluna travada, impedida de usar saltos altos, usei sandálias havaianas sob saias de filó e seda. Cabelos arrumados, maquiagem bem feita. Não dancei, mas acompanhei a festa inteirinha. Sentada às vezes, baixinha ao me levantar, mas acompanhei. Ainda há caixas sobre o guarda-roupa etiquetadas Roupas de Bebê e Bolsas Vintage. Surpresas... Tenho tido muito medo do corona, mas faxinar me salvou do tédio, mostrou que a vida passa rápido demais. E que a limpeza externa, se reflete no meu interior.
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